Crônicas

O triste fim do Jornal do Commercio
Arnaldo Niskier

Desde que entrei para a Academia Brasileira de Letras, em março de 84, o Austregésilo de Athayde, então diretor do Jornal do Commercio, me ofereceu uma coluna às sextas-feiras. Aproveitei tudo o que pude.
 
1664 artigos e 32 anos depois, veio a triste notícia: a mais antiga publicação do Rio de Janeiro - e a segunda mais antiga do Brasil, depois do Diário de Pernambuco - encerraria suas atividades no dia 29 de abril de 2016. A edição online também foi extinta.
 
Na capa da última edição, o jornal ressalta que, nesses quase dois séculos, foi testemunha de todos os episódios que marcaram a história do nosso país, sendo o veículo de comunicação há mais tempo em circulação ininterrupta. O comunicado aos leitores, que também homenageia funcionários, anunciantes e fornecedores, lembra que o veículo sobreviveu às mais “severas e dolorosas” crises políticas da sociedade brasileira, mas que não obteve êxito em superar a atual crise financeira, que classificou como a “mais dramática e mortífera já vivenciada pelo país”. Fundado pelo francês Pierre Plancher, em 1º de outubro de 1827, o Jornal do Commercio foi comprado pelo Grupo Diários Associados, de Assis Chateaubriand, em 1959. Surgiu com foco na economia, com base nas publicações Preços Correntes, Notícias Marítimas e Movimento de Importação e Exportação, editadas por Plancher desde sua chegada ao Rio. Tornou-se um ícone na cobertura do Mercado de Capitais, abrangendo os movimentos das Bolsas de Valores do Rio e de São Paulo, oferecendo informações completas e comentários preciosos. 72% do público leitor era do sexo masculino, sendo 67% com nível de escolaridade superior.
 
Várias personalidades colaboraram para o jornal ao longo desses quase dois séculos. A publicação teve papel importante no movimento que culminou com a abdicação de D. Pedro I ao trono, em 7 de abril de 1831. Seu filho e sucessor, D. Pedro II, escrevia sob pseudônimo no jornal e influía em seus editoriais, a ponto de um destes ter causado a queda do Ministério.
 
Passaram pelo seu quadro de colaboradores e dirigentes, além de Austregésilo de Athayde, grandes personalidades como José de Alencar, Homem de Mello, Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, Visconde de Taunay, Araripe Júnior, Afonso Celso e José Maria da Silva Paranhos Júnior (o Barão do Rio Branco).
 
Em 2005, o jornal expandiu-se, inaugurando sucursais em São Paulo, Brasília e Belo Horizonte, onde passou a ser comercializado em bancas, concorrendo diretamente com outros importantes jornais econômicos brasileiros como Valor Econômico e Gazeta Mercantil. Com a era digital, criou um portal de notícias na rede mundial. No fim de 2015, o Grupo Diários Associados fechou a Rádio Nativa FM. A Rádio Tupi é o único veículo do conglomerado no Rio de Janeiro que continua funcionando.
 
Com uma base jornalística única na imprensa brasileira, conteúdo sempre foi o ponto forte do Jornal do Commercio. Com o encerramento de suas atividades, revela-se, uma vez mais, a incapacidade do país em gerenciar seus problemas, incluindo entre nossas misérias habituais, o infortúnio no acesso à qualidade da informação.
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