Crônicas

A perda do Suassuna
Arnaldo Niskier

Ariano Vilar Suassuna nasceu em 16 de junho de 1927, em Nossa Senhora das Neves, hoje João Pessoa, Paraíba, filho de Cássia Villa Suassuna e João Suassuna, governador da Paraíba, cargo que deixou em 1928. Veio a Revolução de 30, e seu pai foi assassinado, no Rio de Janeiro, por questões políticas. A família se instalou então em 
Taperoá, de 1933 a 1937, na cidade onde Ariano Suassuna iniciou sua vida nos bancos escolares, e travou os primeiros contatos com o teatro de mamulengos e com os desafios de viola, expressões artísticas que iriam marcar profundamente a sua obra.
 
A mudança para Recife, Pernambuco, que aconteceu em 1942, representou para o futuro acadêmico a conclusão dos estudos secundários e o início do seu ciclo no ensino superior, onde optou pela carreira de Direito. Uma opção que, a princípio, parece não condizer com o que ele passou a desenvolver na área teatral, nos anos subsequentes. Na Faculdade de Direito de Recife, fundou, juntamente com Hermílo Borba Filho, o Teatro do Estudante de Pernambuco, e começa a escrever peças de teatro, sendo a primeira chamada “Uma mulher vestida de sol”.
 
Formado em 1950, Ariano Suassuna passou a atuar com afinco na nova profissão. Dizem que os argumentos usados por ele, na defesa de seus clientes, tinham o mesmo brilho de seus textos teatrais. Não custa lembrar que datam deste período obras como O castigo da soberba (1953), O rico avarento (1954) e Auto da Compadecida (1955).
 
A sua ligação com Pernambuco se tornou cada vez mais profunda. Em 1956, começou a lecionar Estética na Universidade Federal de Pernambuco. E em 1959, mais uma vez com a colaboração de Hermílio Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste, que montou peças importantes como a Farsa da boa preguiça (1960). A preocupação em registrar as formas de expressões populares tradicionais, com o nobre objetivo de preservá-las, fez com que Ariano Suassuna lançasse, em 1970, em Recife, o “Movimento Armorial”, que marcou profundamente a cultura nordestina.
 
Filiado ao PSB – Partido Socialista Brasileiro, Ariano Suassuna tornou-se Secretário de Cultura do Governador Miguel Arraes, de 1994 a 1998, quando colocou em prática muitos projetos e programas de valorização da cultura brasileira.
 
Orador de sucesso, fez da ironia e da crítica as qualidades essenciais das suas obras. Mesmo em situações dramáticas que são comuns nos seus trabalhos, sempre está 
presente a qualidade do texto, que não se deixa levar pela correnteza descontrolada das palavras. Daí a linguagem expressiva, com parábolas tropicais originalíssimas. Suas palavras têm uma harmonia nem sempre encontrável na literatura brasileira.
 
O Santo e A Porca, peça escrita por Ariano Suassuna em 1957, traz os fortes traços do regionalismo e da cultura popular, que marcam a obra do escritor. Mostra 
a atitude do avarento Euricão, que vivia dividido entre sua fé (Santo Antônio) e a obsessão pelo acúmulo de riqueza (representada pela “porca”, onde guardou suas 
economias durante anos). Este o imortal que acabamos de perder, mas que sempre será lembrado pela sua obra de excepcional valor.
 
 
 
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