Crônicas

Educação e música
Arnaldo Niskier

Quando se fala em Educação, muitos pensam somente no âmbito escolar, reduzindo o assunto a um período que normalmente fica situado entre os anos de estudo vividos por uma determinada pessoa. Ocorre uma tentativa de transformar todo um processo natural e gradual, num simples limite específico (espaço físico), que denominamos sala de aula.   O processo educativo, porém, vai muito além. Educar é conhecer o mundo, aprender a convivência em sociedade, englobando tanto ensinar como aprender.
 
A música é uma linguagem que se traduz em formas sonoras capazes de 
comunicar sensações, sentimentos e pensamentos, por meio da organização 
sistemática entre o som e o silêncio, presente em todas as culturas nas mais diversas situações. Faz parte da educação desde há muito tempo, sendo que, já na Grécia antiga, era considerada fundamental para a formação dos futuros cidadãos.
 
Pesquisas da neurociência dos últimos 10 anos fizeram descobertas significativas no processo cerebral. A matemática e a música têm muito mais itens em comum do que somente a consoante inicial. A linguagem das duas é universal. Não importa se no Brasil ou na China, na antiguidade ou na contemporaneidade: o raciocínio é o mesmo tanto para os sistemas numéricos, quanto para as escalas sonoras. Este é o fator responsável por eternizar não só os teoremas de Pitágoras, como também as melodias harmônicas de Mozart e os acordes de Bach.
 
A música atua nos dois hemisférios do cérebro. O lado esquerdo, que é mais lógico e sequencial, e o direito, que é holístico, intuitivo, criativo. No processo musical os dois lados são trabalhados.
 
Um dos estímulos mais potentes para os circuitos do cérebro, além de ajudar no raciocínio lógico-matemático, a música contribui para a compreensão da linguagem, o desenvolvimento da comunicação, a percepção de sons sutis e para o aprimoramento de outras habilidades.
 
As melhores lembranças que tenho da minha primeira escola – o Instituto de Educação, na Tijuca – se relacionam com a música. Eu devia ter entre 4 e 5 anos, quando minha primeira professora, D. Paulina, promovia um inesquecível momento de repouso para acalmar os alunos. Deitávamos todos em esteiras, ao som de música clássica. Até hoje a melodia de Clair de Lune, de Débussy, não só me acalma como conforta as saudades que tenho daquelas lembranças. Um detalhe curioso: quis o destino que D. Paulina, anos mais tarde, viesse a ser a minha amada sogra. Mas essa é outra história.
 
Não por acaso, a nomenclatura que os gregos atribuíram a “professor” foi Ephorus (que, no idioma antigo, significa farol que irradia LUZ para todos os lados). No latim, a palavra correspondente para designar “professor” é magister, que significa “tirar de dentro para fora”. Educar, portanto, é iluminar a vida através da luz do conhecimento, que deve brotar de dentro do aluno para fora de sua existência.
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