Crônicas

Livro impresso X livro digital
Arnaldo Niskier

 

Com mais de 700 inscrições, o Congresso Rio de Educação, realizado no Hotel Sofitel, foi um sucesso completo, para alegria do seu inspirador, o professor Victor Notrica, presidente do Sindicato das Escolas Particulares (Sinepe). Tive o ensejo de coordenar a primeira das suas mesas, que tratou de um tema atualíssimo: “Do livro de papel ao livro digital: uma reflexão sobre o exercício da leitura”.
 
O primeiro orador foi o engenheiro Sílvio Meira, da Universidade Federal de Pernambuco. Munido de um poderoso Fujitsu, encantou a plateia, dizendo coisas que nos fizeram pensar: “O principal inimigo do livro impresso não é livro digital, mas os games e as redes sociais que faturam hoje bilhões de dólares.”
 
Mostrou que a procura por games dobrou de 2011 para cá, chegando a 142 horas por ano por pessoa. Afirmou ser decrescente o faturamento em livros impressos e que os digitais constituem um instrumento precioso de sustentação do fenômeno da leitura. O programa que mais cresce é o chamado “Angry birds”, com 30 milhões de jogadores por dia e o Facebook é um ambiente com 1 bilhão de usuários. São números extraordinários, que tendem a crescer quando for lançado, até o Natal, o Kindle da Amazon, um sistema inteiro que irá balançar o livro tradicional. Não terá propriedade intelectual e entrará livremente nas bibliotecas das escolas. A previsão de Sílvio Meira, que é doutor em ciência da computação, é de que muitas livrarias, a partir daí, poderão quebrar, embora os livros de conteúdos, com funcionalidade, devam ter uma grande sobrevida.
 
Depois veio a fala do escritor Muniz Sodré, que foi presidente da Biblioteca Nacional. Especialista em comunicação, com domínio de vários idiomas, demonstrou que “do impresso nasceu uma nova economia do tempo de aprendizagem”. Quando a oralidade era predominante, não se precisava do livro para pensar e debater. Passou pelo conceito de hipertexto (é a complementaridade dos textos) e classificou a internet como a realização tecnológica do intertexto, “onde o leitor é incitado o tempo todo à livre navegação dos bytes, ao veloz nomadismo do hipertexto, sem contas a prestar ao autor.”
 
 Para ele, não se está assistindo ao fim da forma-livro, mas à sua continuidade em outro suporte material, como assinala Umberto Eco, para quem o livro é uma invenção definitiva. Com o digital abrem-se outras possibilidades para a interatividade.
Muniz defende a existência de uma “ciberliteratura”, criticou os nossos escassos índices de leitura e revelou a existência, no Brasil, de um descompasso pedagógico frente à ascensão dos novos modos de ler, que incidem justamente sobre as práticas juvenis de interpretação de textos no âmbito de escrita digital. A seguir a plateia, muito mobilizada, discutiu as questões levantadas. Ficou no ar a convicção de que o livro não morrerá, mas ganhará novos e ampliados contornos.

 

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