Crônicas

Infelizes para sempre
Arnaldo Niskier

 

Estamos em plena fase de comemoração dos 400 anos do escritor e orador Antônio Vieira, religioso que foi uma das figuras mais importantes da nossa literatura. Numa das suas expressões mais felizes, o padre Vieira condenou a excessiva importação de termos estrangeiros (isso na época em que viveu), chegando a proclamar:
“Só mendigam de outras línguas os que são pobres de cabedais da nossa, tão rica e bem dotada.”
 
Os problemas, na modernidade, ganham outros contornos. Fomos invadidos por uma avalanche de expressões inglesas, sobretudo por causa da explosão dos computadores, e temos o dever de conciliar o que vem de fora com o que já existe, na língua de Camões, com o mesmo significado. Vale recordar a polêmica do termo “deletar”, incorporado aos nossos usos e costumes, mas que muitos mestres consideraram verbete desnecessário, no vocabulário ortográfico brasileiro.
Agora, o problema se agrava com a inundação de livros com as histórias de Walt Disney, vertidos para o português, mas com uma quase científica orientação de agredir a nossa língua. É tanto erro que parece de propósito.
 
Quem chamou a atenção para o fenômeno foi uma neta, que se deparou com o livro “Felizes para Sempre”, da série Tesouro Musical Mágico. A menina ficou horrorizada. Está na sétima série do ensino fundamental e mostrou de que maneira a editora Publication International desrespeita a nossa ortografia.
 
Há um festival de erros lamentáveis na obra, que deveria ser proibida pela censura (aí, sim, se justifica). Como é que pode circular com palavras como “viajens” (... em uma das arriscadas viajens de Ariel...), “tôrre”, “sózinho”, etc. São mais de 30 erros.
 
São contos clássicos que foram tratados de forma abominável, do ponto-de-vista gramatical, o que se pode considerar um grande desrespeito aos professores brasileiros, que dão um duro enorme para explicar como são escritas as palavras – e vem a versão com histórias como “Branca de Neve”, “ A Bela Adormecida” e “A Pequena Sereia” com essa sucessão indefensável de equívocos.
Uma delas começa assim: “A MUITO TEMPO ATRÁS...” Chega a ser irritante. O nome de Disney, na coleção, agrava o fato, pois se trata de um autor consagrado universalmente. Pode se imaginar que ele, quando pensou na figura simpática do Zé Carioca, tenha desejado prestar uma homenagem ao Rio de Janeiro e, conseqüentemente, ao Brasil. Mas os sus herdeiros não fazem o mesmo, lançando um produto quase criminoso, no mercado de livros infantis.
 
Queimar livros nunca foi uma boa solução. Ao contrário, sempre significou a existência de tempos de obscurantismo, como ocorreu durante o período do nazismo e do fascismo. Não se deseja que esse recurso seja empregado, no caso, mas é preciso fazer alguma coisa para que editoras de fora respeitem o nosso idioma e não menosprezem os leitores brasileiros. Só não é defensável a passividade diante dessas barbaridades.
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