Crônicas

As luzes de uma educadora
Arnaldo Niskier

Aprendi com o velho mestre Luís Caetano de Oliveira, que era um sábio, uma lição para mim inesquecível: as estrelas morrem, mas a sua luz continua a chegar até nós por muitos e muitos anos . Certamente é o que ocorrerá com a exemplar educadora que foi Edília Coelho Garcia.  Ela nos deixou aos 91 anos de idade, mas suas admiráveis lições continuarão a iluminar os caminhos de muitas gerações de professores e especialistas brasileiros.
 
Conheci D.Edília, como a chamávamos, há mais de 50 anos. Dirigia com muita garra e competência o Colégio Brasileiro de Almeida e integrava o Conselho Estadual de Educação, como figura destacada. Numa  conversa amiga, na antiga sede da Manchete, na rua Frei Caneca nº 511, ela me convenceu de que  deveria postular uma vaga no Conselho.  Jamais esqueci suas palavras: “Você é muito jovem , mas é de gente assim que a nossa educação está necessitada”. Quando surgiu a oportunidade, em 1975 , fui ser seu colega no órgão normativo da educação da Guanabara- e aprendi muito, não só com as suas lições, mas na companhia de outros ”monstros sagrados” da nossa pedagogia,como Fátima Cunha Ferreira Pinto, Carlos Alberto Serpa, Edgard Flexa Ribeiro, Henrique Zaremba, Padre Leme Lopes e D. Lourenço de Almeida Prado. Tempos que não voltam mais.
 
A experiência de D. Edília era tamanha que foi convocada para servir ao Conselho Federal de Educação, onde prestou grandes serviços ao país ao lado de formidáveis educadores, como Newton Sucupira, Valnir Chagas e padre José de Vasconcelos, entre outros, os quais ela agora irá novamente se juntar, depois de beijar, com imensa saudade, o seu amado marido Edson, na vida eterna.
 
Tive o privilégio de contar com a ajuda de D. Edília, durante quatro anos, como Subsecretaria de Estado de Educação e Cultura, no período de 1979 a 1983. Responsável direta pelo planejamento das atividades da Secretaria de Estado, criou o inesquecível PAEC, que traçou os caminhos a serem percorridos, permitindo que inaugurássemos nada menos do que 88 escolas públicas, em todo o território fluminense. Marca notável, que se deve igualmente creditar à compreensão e apoio do Governador Chagas Freitas. A lei federal obrigava a aplicar nada menos que 25% do orçamento em educação.  Pois ele determinou que fossem 33%, o que ensejou um período áureo de ampliação das vagas existentes e também de melhor remuneração do quadro do magistério. Aumentos de até 1.000% foram dados à categoria, fenômeno rigorosamente inédito, até hoje, na educação fluminense.
 
Com a energia muito própria de uma mulher de fibra, D. Edília, em sua existência, jamais conheceu descanso. Emprestou decisiva colaboração à Comissão Nacional de Moral e Civilismo, presidiu a Associação Brasileira de Educação, sempre esteve presente às reuniões da Academia Brasileira de Educação e da Academia Internacional de Educação. Seus artigos nos jornais eram fonte permanente de inspiração, na busca de uma educação de qualidade. D. Edília fará falta a nós todos. A melhor homenagem que se pode prestar à sua memória é prosseguir na defesa dos ideais que marcaram, em cores fortes, a sua gloriosa existência.
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