Crônicas

Cabral e as orações aos Moços
Arnaldo Niskier

 

Bernardo Cabral, ele também um grande orador e jurista de renome, relator dos trabalhos da Constituinte de 1988, fez uma apreciada conferência no Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo. Recordou, com muita propriedade, o que Rui Barbosa representou para o Brasil, nas várias atividades nacionais e internacionais em que se envolveu. Sem dúvida, uma figura estelar, como o jornalista e acadêmico Murilo Melo Filho demonstrou de forma competente no livro “O brasileiro Rui Barbosa”, há pouco editado pelo jornal “A União”.
 
Cabral não se limitou aos elogios fáceis. Mostrou as dificuldades enfrentadas na vida pelo orador baiano, candidato derrotado à presidência da República e ministro de Estado bastante contestado num período em que a inflação ganhou um vulto inusitado. Rui não foi só a “Águia de Haia”, quando brilhou intensamente na corte internacional, falando de improviso em francês e inglês, nomeado que fora pelo Barão do Rio Branco para o cargo que parecia destinado ao brilho de Joaquim Nabuco, numa época em que o grande escritor pernambucano, aos 57 anos de idade, dava os primeiros sinais da doença que o vitimaria, três anos mais tarde (envelhecimento precoce). Foi uma surpresa para o mundo desenvolvido a atuação daquele homem baixinho, que pedia a palavra a toda hora, para falar mesmo antes de receber a tradução convencional.
Dominava à perfeição os idiomas oficiais da Conferência da Haia.
 
Ao mesmo tempo que Bernardo Cabral concordou que Rui tinha ideias que nem sempre se encaixavam no modelo brasileiro, como aconteceu com a pretendida reforma dos ensinos primário e secundário, quando os seus dois pareceres de 1882 e 1883 foram derrotados no Parlamento, sob a alegação de que sugeriam uma desconfortável transplantação de cultura ao estilo alemão de educação, foi incomparável a sua contribuição às nossas letras jurídicas, o que acabou por levá-lo à presidência da Academia Brasileira de Letras, onde ficou por 11 anos, em substituição a outro mito: Machado de Assis.
 
Na histórica homenagem recebida dos alunos da Faculdade de Direito de São Paulo, Rui Barbosa enviou-lhes um texto, classificado como “Oração aos moços”, lembrado de forma oportuna por Bernardo Cabral, pela sua atualidade: “O Brasil é a mais cobiçada das presas e, oferecida, incauta, ingênua, inerme a todas as ambições, tem de sobejo com que fartar duas ou três das mais formidáveis. Mais o que lhe importa é que dê começo a se governar a si mesmo, porquanto nenhum dos árbitros da paz e da guerra leva em conta uma nacionalidade adormecida e amenizada na tutela perpétua do governo que não escolhe. Um povo dependente no seu próprio território e nele mesmo sujeito ao domínio de senhores, não pode aspirar seriamente, nem seriamente manter, a sua independência no estrangeiro... Incansavelmente, servi à minha Pátria, desde os bancos acadêmicos. Preguei, demonstrei e honrei a verdade da Constituição e a verdade da República.”
 
São palavras fortes, como afirmou Bernardo Cabral, para serem sempre lembradas, sobretudo pelos jovens que são o nosso futuro.
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