Crônicas

José Veríssimo e a educação
Arnaldo Niskier

 José Veríssimo, nascido em Óbidos(Pará), foi o fundador e primeiro ocupante da cadeira nº 18 da Academia Brasileira de Letras.  Durante toda a sua vida, dedicou-se com fervor à causa da educação nacional.
 
 Vejamos algumas das suas palavras:
 “Em a nossa instrução pública, hoje como ontem, a coisa de que carecemos é de verdade.  Precisamos acabar de uma vez  com a espetaculosidade de regulamentos, programas, instituições e organizações que ficam na prática sem nenhuma realidade.  Não é, pois, sem apreensões que vemos esta faculdade outorgada aos estados, sem o estabelecimento de um meio qualquer de fiscalização que garantisse a verdade desses estudos, meio que se poderia porventura encontrar em um exame de entrada nas faculdades, perante membros das respectivas corporações ou pessoas por elas designadas, exame para o qual se exigiria aquele certificado de estudos secundários.
 
Quanto ao ensino particular, aumentou-lhe a reforma a grande liberdade de que já gozava no antigo regimento, o que só pode merecer aplausos dos espíritos verdadeiramente liberais.  E, mais, determinando, como vimos, que de 1895  em diante cessassem os exames de preparatórios, dispensou os alunos dos cursos particulares dos exames a que o regulamento chamou de finais, sujeitando-os apenas ao de madureza.”
 
 Em outro momento, já na introdução à 1ª. edição de “A Educação Nacional”, José Veríssimo dá a sua versão sobre o brasileirismo que então se discutia:
 
“É a principal  a desmarcada extensão do país comparada com a sua escassa e rareada população.  Isolados nas localidades, nas capitanias e depois nas províncias, os habitantes, por assim dizer, viveram alheios ao país.  Desenvolveu-se neles antes o sentimento local que o pátrio.  Há baianos, há paraenses, há paulistas, há rio-grandenses.  Raro existente o brasileiro.  É frase comum: “Primeiro sou paraense (por exemplo) depois brasileiro.”  Outros dizem: “A Bahia é dos baianos, o Brasil é dos brasileiros.”  Pela falta de vias de comunicação, carestia e dificuldade das  poucas existentes, quase nenhuma havia entre as províncias.

 Raríssimo há de se encontrar um brasileiro que por prazer ou instrução haja viajado o Brasil.  Durante muito tempo os estudos se iam fazer à Europa, muito especialmente a Portugal, Lisboa, e Coimbra.  Eram as nossas capitais intelectuais.  As relações comerciais foram até bem pouco tempo quase exclusivamente com aquele continente e com aquele estado.  Tudo isto vinha não só da geografia do país, mas também da ciosa legislação portuguesa que de indústria procurando isolar as capitanias, longe de acoroçoar as relações entre elas, preferia as tivessem
com o reino.  Destes diferentes motivos  procede o estreito provincialismo brasileiro, conhecido sob o  significativo apelido de bairrismo, que hostilizava e refugava de si o mesmo brasileiro oriundo de outra província alcunhando-o, no Pará por exemplo, de barlaventista.
 
Pode-se concluir a contribuição de José Veríssimo à educação nacional com o seu comentário sobre o iletrado brasileiro, segundo ele da ordem de 84% da população, “que nada encontrou que impressionando seus sentidos lhe falasse da pátria e a seu modo fosse também um fator de sua educação.  Não há museus,  não  há monumentos, não há festas nacionais... O que frequentou a escola desadora a leitura e o estudo, não procurando fazer-se a si próprio uma educação patriótica.”  Há muito o que refletir sobre o pensamento pioneiro do grande escritor paraense.
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