Crônicas

Um banho de modernidade
Arnaldo Niskier

 

O meu amigo Cristovam Buarque pede socorro aos dicionaristas brasileiros, para que façam o registro do termo educacionismo. Sente falta do que seria um movimento amplo em favor da educação, alcançando todos os poros da nossa sociedade. Na verdade, com a genialidade que o caracterizou, o filólogo Antonio Houaiss, de saudosa memória, ao elaborar o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, editado pela Academia Brasileira de Letras, registrou na página 277 a palavra educacionismo como substantivo masculino. Portanto, oficialmente, ela existe. Se não está no Aurélio, é outra história.
 
O que sentimos mesmo é a falta de um bom banho de modernidade, na educação brasileira. Estamos aferrados a conceitos ultrapassados, como ouvi de alguns “conceituados” especialistas: “O sr. não deve insistir em promover a competição entre os alunos. Nada de medalhas ou homenagens. Isso pode prejudicar a sua auto-estima...” Quando, no mundo desenvolvido, ensina-se a competir – e isso não está fora do conceito de empreendedorismo – aqui se desenvolve uma dinâmica inversa, ultrapassada.
 
A competição baseia-se fundamentalmente no sistema do mérito e no respeito à diversidade. Quem estuda mais e obtém as melhores notas ou conceitos terá as maiores oportunidades. Essa é a lógica, que não tem nada a ver com sorteio de carros ou eletrodomésticos. Aí é o campo da televisão, como foi o do rádio, misturando sorte com entretenimento. Tem um caráter efêmero.
 
Se pensarmos a escola como empresa, embora com a ressalva de que os seus produtos são seres humanos, os incentivos para alunos e professores são até aconselháveis. Dar livros ou aumentar salários e vantagens são altamente defensáveis, o que deve ser feito sem susto – e de modo seguro. Se é assim, por exemplo, em cidades avançadas, como vimos em Seul e Nova Iorque, por que temer essa forma de atuar? A busca da excelência precisa ser a preocupação número um dos envolvidos no processo de educar. Os professores também devem ser avaliados por intermédio de notas, sejam ou não pertencentes aos quadros públicos. É a melhor maneira de fazer justiça.
 
Quando isso for uma constante, evitar-se-á o espetáculo dos cortes de vagas, como hoje ocorre no ensino superior, que acaba de eliminar 6 mil em Direito. Ninguém pode ser contra a idéia de evitar os excessos praticados na oferta de vagas. A língua portuguesa é assassinada nesses cursos de uma forma avassaladora, segundo os técnicos do MEC, encarregados da operação de avaliação. Se existe a prática de uma redação, nos vestibulares, como é que gente assim despreparada passa? Ou seja, é aprovada de qualquer maneira. E a qualidade afunda, apesar de alguns reitores afirmarem o contrário.
 
O choque de modernidade pode – e  muito – ajudar os diretores de escolas a administrar de modo adequado o seu estabelecimento. As que tivessem o conjunto das melhores notas seriam premiadas com maiores recursos financeiros, como hoje ocorre nos Estados Unidos e até entre nós. Assim será possível estimular ainda mais o aperfeiçoamento de bibliotecas e laboratórios, num processo irreversível de crescimento.
 
É uma forma de combater a evasão, a repetência (por desinteresse), a violência crescente e até mesmo promover, como se pede no ensino superior, a redução do excessivo número de alunos nas salas de aula, seja em que nível for. E que os pais não esqueçam as suas responsabilidades nisso tudo. O pior remédio é o desinteresse, logo percebido pela aguda sensibilidade dos alunos.
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