Crônicas

O menino que tinha medo de gente
Arnaldo Niskier

O reencontro com Fernando Pinto, em Brasília, foi uma festa. Há muitos anos não nos víamos. Nos tempos da Manchete, ele foi um dos melhores (senão o melhor) repórter da revista, com feitos extraordinários, hoje retratados no livro “O menino que tinha medo de gente”, por ele escrito e lançado em 2015 na capital da República. É o seu 11º livro e a primeira autobiografia.
 
Apaixonado por jornalismo, com passagens por diversas publicações brasileiras, Fernando Pinto sempre teve gosto pelo que chamamos de reportagem. Tinha faro por matérias jornalísticas – e assim se destacou, nos seus 65 anos de vitoriosa carreira.
 
Algumas das suas matérias foram por mim inspiradas. E teve até aquela que não foi escrita, a respeito das areias monazíticas do Espírito Santo. Escalei o Fernando Pinto e o fotógrafo Domingos Cavalcanti para realizá-la. Devidamente apetrechados, partiram para Vitória, mas voltaram uma semana depois de mãos abanando (e sem dinheiro). Quando o Jaquito soube que a reportagem não foi realizada, ficou inconformado, ainda mais com a explicação do Fernando: “Como estava chovendo, fomos para um cassino e jogamos todas as diárias na roleta. Perdemos tudo. O jeito foi voltar para o Rio.”
 
Com a ordem de demissão sumária, o Fernando, ainda na rua Frei Caneca 511, dirigiu-se à Contabilidade para acertar as contas. Na volta, já demitido, encontrou o Adolpho Bloch no meio da oficina gráfica. Eu estava ao lado do Adolpho. Ele perguntou ao Fernando pelas novidades. O repórter foi sincero: “Fui demitido pelo seu Jaquito.” Quando o Adolpho, meio espantado, perguntou a causa, reagiu de maneira inusitada: “Você jogou no preto 17?” Fernando disse que não, aí o Adolpho atribuiu a isso o seu fracasso na roleta.”
 
Entre risos e abraços, mandou o Fernando voltar ao trabalho. “E o seu Jaquito?” A resposta foi surpreendente: “Deixa ele comigo. Vai trabalhar. Precisamos de boas reportagens!”
 
Era esse o clima dominante na redação da Manchete. Não foi difícil entender porque, aos poucos, na década de 60, a revista foi superando o largo predomínio de “O Cruzeiro”. Em algum tempo a Manchete já vendia mais de 300 mil exemplares, com dois segredos essenciais: boas reportagens e um serviço gráfico de primeira ordem, graças às estupendas máquinas trazidas da Alemanha, por iniciativa do Adolpho Bloch. Eram chamadas de Albertinas.
 
Voltando ao Fernando Pinto, ele fez uma bela dupla com o grande fotógrafo Gervásio Baptista, que vinha da primeira hora da revista, em 1952. Foram juntos à Indonésia, numa viagem que me era destinada, mas que preferi ceder ao repórter, pois estava voltando de uma ida a Leipzig e não queria emendar uma viagem na outra. No seu livro, Fernando conta a admiração que tinha pela redação da Manchete: “Justino Martins, ex-correspondente da Manchete em Paris; Raimundo Magalhães Jr., historiador e membro da Academia Brasileira de Letras; Zevi Ghivelder, redator; Arnaldo Niskier, um dos melhores chefes de reportagem que já conheci; Murilo Melo Filho, expert em política , e o poeta Lêdo Ivo. Na área de esportes, despontava Ney Bianchi; na diagramação, Wilson Passos e Nelson Gonçalves.”
 
Citou também outras figuras de renome, como Salim Miguel, João Saldanha, Ronaldo Bôscoli, Fausto Wolff, Raul Giudicelli, Cordeiro de Oliveira, além dos “focas” Paulo Henrique Amorim e o acreano Odacir Soares, que depois se elegeria senador da República. Além disso, uma equipe notável de repórteres-fotográficos, muitos dos quais bastante premiados e que faziam jus às exigências de qualidade da direção da revista. Uma equipe verdadeiramente notável.
 
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