Crônicas

Histórias do Dr.Roberto
Arnaldo Niskier

O jornal O Globo está comemorando 90 anos.  Segundo seus próprios dirigentes, nove décadas olhando para o futuro.  A inspirar os seus passos, a figura emblemática de Roberto Marinho, o Dr. Roberto,  como era conhecido.  Sua história é a do Globo, que nasceu por inspiração do pai Irineu, no dia 29 de julho de 1925.
 
Só que o destino fez das suas e, pouco menos de um mês depois, o fundador faleceu, vítima de um infarto.  O filho mais velho, com 20 anos de idade, foi obrigado a assumir o comando do empreendimento.  Tornar-se-ia o maior empresário de comunicação do país.   Não foi só o jornal.  Em 1944 a Rádio Globo iniciou suas operações, para também se tornar líder de audiência.  Em 1965 foi a vez da TV Globo, hoje a quarta network do mundo.  E aí vem a primeira história que devo contar, ouvida em Angra dos Reis do próprio autor da façanha: “Já tinha mais de 60 anos e resolvi me aventurar pelos caminhos da televisão.  Convidei meus irmãos Ricardo e Rogério para sócios.  Eles ficaram temerosos.  Banquei a TV sozinho”.
 
Em 10 anos, nas muitas idas à residência da praia de Mombaça, em Angra dos Reis, sempre a convite, bom ouvinte que sou, registrei fatos notáveis.  E uma preferência: o Dr. Roberto tinha predileção pelo jornal.  Era capaz de falar horas sobre os primeiros tempos do jornal e seus companheiros de experiência.  Destaque  para Euricles de Matos, Herbert Moses e Alves Pinheiro, este a alma  da redação, nos vários locais em que se situou. Conheci o Dr. Roberto em encontros sociais, especialmente nas datas festivas das embaixadas.  De uma feita, no aniversário da França, levei um puxão de  orelhas por causa da cobertura de carnaval.  A TV Manchete, recém inaugurada (1984), ganhou a exclusividade e brilhou intensamente.  Teve audiências incríveis.  O Dr. Roberto não perdoou o Adolpho Bloch por causa disso: “Sempre fui amigo do Adolpho, ele não podia ter feito isso comigo.”
 
Nossa intimidade cresceu com a entrada de Roberto  Marinho para a  Academia Brasileira de Letras, em 1993.  Tudo por obra e graça da perspicácia de Austregésilo de Athayde:  “No futuro, vocês sempre se lembrarão de mim por causa disso.”  De fato, a partir desse convívio, amiudaram-se nossas idas a Angra dos Reis.  Fins de semana gostosos, à beira mar, com papos prolongados, em companhia da minha mulher Ruth e da inesquecível Lili de Carvalho Marinho.
 
Histórias recorrentes do Dr. Roberto: o orgulho dos três filhos, cada um com seu estilo próprio; as caçadas submarinas, com os amigos Álvaro e Carlos Tavares; a tristeza pela perda do filho Paulo, num desastre na estrada de Cabo Frio; a paixão pela construção civil; as façanhas no hipismo; a ojeriza pela interferência oficial no seu quadro de jornalistas (“dos meus comunistas, cuido eu”) etc.  Tudo isso 
vivido com muita doçura e uma fina educação.
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