Crônicas

As lições de Bechara
Arnaldo Niskier

 

No contexto de renovação da língua portuguesa, sob os efeitos da implementação do Acordo Ortográfico de Unificação, uma unanimidade é a competência do filólogo e gramático Evanildo Bechara, responsável maior pelo lançamento da 5ª edição do VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), uma obrigação legal da Academia Brasileira de Letras.
 
Ao falar no Teatro R. Magalhães Jr., em sessão comandada pelo acadêmico Cícero Sandroni e coordenada pela imortal Domício Proença Filho, Bechara relatou a responsabilidade da ABL pela matéria, objeto de diversos acordos anteriores com o mundo lusófono(1943, 1945, 1971 e 1990). O lançamento do VOLP, com 381 mil verbetes atualizados, representa uma vitória dos praticantes da nossa língua, que passam a ter uma orientação oficial sobre a grafia das palavras, apesar da permanência de pequenas “zonas de sombra” que certamente serão corrigidas com o tempo.
 
Não é um trabalho conjunto com a academia das Ciências de Lisboa. O texto original do Acordo, de 1990, assinado pelo então presidente José Sarney, prevê a existência de um outro Vocabulário, destinado a nomenclatura, para abrigar termos técnicos e científicos. Este, sim, terá a colaboração futura de outras instituições culturais, como a Academia Brasileira de Ciências, a Academia Nacional de Medicina, a Academia das Ciências de Lisboa, etc. O atual VOLP, cuja primeira edição é de outubro de 1981 – e no qual tive o ensejo de trabalhar, ao lado de Antonio Houaiss – é um vocabulário da língua, nascido com o espírito  de simplicidade que é sua maior característica. O objetivo é ser compreendido por todos.
 
Bechara explicou as razões pelas quais as palavras ideia e heroi deixaram de ser acentuadas. Para aproximá-las da pronúncia mais fechada (abafada) dos demais países da comunidade lusófona. Da mesma forma voo e perdoo perderam o circunflexo. Assinala-se uma vertente de grande respeito à tradição ortográfica, razão pela qual palavras como pontapé, passatempo e montepio continuaram a ser escritas junto, contrariando regras que estão no Acordo. Prevaleceu a tradição de mantê-las aglutinadas.
 
O caso do hífen é complicado, todos sabemos, mas é possível encontrar uma certa lógica no seu emprego. Tenente-Coronel tem o hífen, mas General de Brigada não tem, o que pode infernizar um pouco a nossa vida. Questão de hábito. Em geral, todas as locuções perderam a hifenização, já as onomatopéias têm hífen (cri-cri, tique-taque, ping-pong, zás-trás, etc). Como o “re” foi esquecido pelo Acordo (indevidamente), manteve-se a tradição: reeleição, da mesma forma que a palavra coordenação. Tudo junto. Quem ficou separado, como exceção, é o popular vaga-lume, assim como rega-bofe.
 
Diz-se que a reforma ortográfica é para ser apreendida pelas gerações futuras, como se a nossa estivesse condenada à confusão. Aconselha-se o estudo acurado das suas modificações, sem o emprego indesejável de “pegadinhas”, para que aos poucos o povo brasileiro, especialmente os estudantes, se familiarize com os seus conceitos. A nossa língua é difícil, mas bela, como afirmou Olavo Bilac, e merece toda a carinhosa atenção.
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