Crônicas

Tirar de letra nem sempre é uma boa idéia
Arnaldo Niskier

A lembrança futebolística excita a minha memória. Cheguei a ver o craque Domingos da Guia, grande zagueiro do Flamengo e da seleção brasileira, atuando em campo. São inesquecíveis as suas jogadas, embora às vezes perigosas. Gostava de emocionar o público fazendo na área o que os dicionários chamam de “tirar de letra”, ou seja, locução verbal que significa “agir com competência”. Mas nem sempre dava certo – e aí virava uma “domingada”. Perder a bola dentro da área é praticamente dar um gol ao adversário. O uso do calcanhar pode ser traiçoeiro.
 
O governo central tirou de letra a questão da alfabetização, no Brasil. No mau sentido da expressão. Foi competente para reduzir a pobreza de 12 milhões de brasileiros, com o programa “Bolsa Família”, mas esqueceu que poderia ter criado o “Bolsa Alfabetização” – e nada fez pelos 14 milhões de adultos analfabetos existentes no país. Tirou de letra e perdeu uma grande oportunidade.
 
Leio o jornalista e escritor Merval Pereira e me solidarizo com a sua preocupação: “Dos 130 milhões de eleitores brasileiros, cerca de 60% são formados por analfabetos, analfabetos funcionais ou pessoas que não completaram o ensino fundamental.” Não vamos cair no exagero de afirmar que não sabem votar, mas não há dúvida que têm algum tipo de dificuldade para exercer na plenitude o seu direito à cidadania, problema que não ocorre com os 40 milhões de patrícios que declaram o imposto de renda e que certamente também conhecem os mistérios da mídia eletrônica. De toda forma, é de perder o sono a verificação de que somente um em cada quatro brasileiros é plenamente alfabetizado. Isso não é um entrave ao nosso crescimento?
 
Os números da educação são terríveis. Temos uma precaríssima educação infantil e um ensino fundamental vivendo a falsa ilusão da universalização, hoje nitidamente sacrificada pela incorporação das crianças de 6 anos de idade ao processo. Com uma constatação inquietante: os dados do próprio MEC, via Saeb, comprovam que 25% dos que completam a quarta série continuam analfabetos, sem condições de ler, escrever e interpretar textos de forma autônoma. É claro que isso tudo leva a um ensino médio tumultuado e congestionado de matérias, além de desinteressante, o que provoca o afastamento desse ensino órfão da metade dos jovens em idade própria.
 
O resultado aparece no teste internacional Pisa, relativo ao aprendizado de alunos de 15 anos de idade em 57 países: tiramos o 54o lugar em matemática, 52o em ciências e 49o em linguagem.
Nossos professores são vítimas do sistema, que os prepara mal e remunera de forma ridícula, na grande maioria dos estados menos de mil reais por mês. O piso oficial não é respeitado – e ninguém é preso por causa disso. Mesmo assim, cerca de 60 mil buscam o doutorado e pouco mais de 200 mil realizam pesquisas, número vergonhoso perto do que ocorre nos países do BRIC. A China tem 1,5 milhão de pesquisadores e a Rússia, 1 milhão. O que se pode esperar da concorrência, em termos de futuro imediato?
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