Crônicas

O Mito Heleno de Freitas
Arnaldo Niskier

 O filme de José Henrique Fonseca sobre Heleno de Freitas(1920-1959) não diz tudo sobre o craque botafoguense, interpretado nas telas por Rodrigo Santoro.  Para tentar entender o grande craque, tomo emprestado um trecho de Carlos Heitor Cony sobre o genial compositor Puccini: “Thomas Edison, o maior inventor do seu tempo, deu a Puccini um dos seus primeiros gramofones, com a enorme tuba em ouro, na qual mandou gravar: “Outros depois de mim farão inventos maiores, mas ninguém fará melodias mais belas do que  Puccini.”
 
Um pouco se aplica a Heleno de Freitas, que foi durante muitos anos o principal atacante do Botafogo F.R. Tinha uma elegância em campo que era única, na década de 40, fazendo gols de todos os tipos possíveis e imagináveis.  Era muito vaidoso e, em função disso, a torcida do Fluminense  o batizou de “Gilda”, nome de um filme estrelado pela lindíssima atriz Rita Hayworth, na época em pleno auge da sua  carreira.
 
 Heleno não ligava muito pra isso.  Num jogo, depois de driblar o goleiro e entrar com bola e tudo no gol, tirou um pente de dentro do calção e começou a ajeitar o cabelo, enquanto mandava beijos para a torcida.  Mas a sua carreira, como sempre acontece, não era eterna.  Foi até mesmo encurtada em virtude dos seus excessos, fora de campo.   Era um boêmio completo.  Acabou contraindo uma sífilis fatal.  Antes, formou-se em direito, mas não exerceu a profissão de advogado.  Nem teve tempo para isso.
 
 Tinha um sonho: disputar a Copa do Mundo de 1950, no recém inaugurado campo do Maracanã.  Não era nenhum absurdo, pois Heleno disputou 18 jogos pela seleção brasileira, fazendo 14 gols.  Mas entrou em declínio e nem foi convocado por Flávio Costa para aquele time histórico, que aplicou grandes goleadas na Espanha e na Suécia, mas perdeu a Copa, no último  jogo.
 
Conheci Heleno Freitas bem de perto, em circunstâncias dramáticas.  Assisti ao seu último jogo, já decadente, vestindo a camisa do América F.C., no Estádio do Maracanã.  Era contra o São Cristóvão,  mas Heleno só jogou (e muito mal) durante 25 minutos, decepcionando a torcida rubra, que era de tamanho razoável no ano de 1951.  Ele foi substituído pelo  treinador Délio Neves.  Na boca do túnel, à vista de todos, Heleno deu  um  safanão no técnico, berrando: “Não me pegue, você tem lepra!” É claro que não era verdade.  Délio tinha  apenas uma doença de pele que a deixava descolorida.
 
Mas o melhor (ou o pior) aconteceu na noite seguinte, uma segunda-feira, na sede de Campos Sales.  Nunca vi  tanta gente naquela rua importante do bairro da Tijuca.  A razão?  Todos sabiam que Heleno de Freitas havia sido chamado pela diretoria do clube, para a inevitável rescisão do contrato.  Ele estava literalmente transtornado.  Passou pela porta do clube e, mesmo da calçada, soltou uma série de   palavrões, “homenageando”  os diretores.  Foi vaiado.  Alguém teve a feliz ideia de colocá-lo num carro e sair dali.  Foi sua última aventura futebolística.  Heleno morreu em 1959, num asilo de loucos, em Barbacena(MG).
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