Crônicas

O Mestre escola Joaquim da Silva
Arnaldo Niskier

 

Na cidade de Areia, capital do brejo paraibano, viveu entre 1820 e 1889 uma figura notável da história brasileira: Joaquim da Silva. Não bastasse a cidade ter sido o berço de grandes figuras, como José Américo de Almeida e Pedro Américo, deu-nos um educador, político e empresário que foi pioneiro na adoção do latim, como demonstrou com muita competência o historiador Francisco de Sales Gaudêncio, na tese de doutoramento realizada na Universidade São Paulo, com amplo sucesso.
 
No livro “Joaquim da Silva: um empresário ilustrado do império” (Edusc, 2007), uma riquíssima biografia social, o autor discorre sobre os êxitos de JS ao romper as difíceis barreiras interpostas por uma sociedade elitista e preconceituosa. Nada impediu que ele, em setembro de 1851, na Assembleia Provincial da Paraíba do Norte, apresentasse uma histórica emenda, estabelecendo o ordenado de 450 mil réis aos professores da Capital, 400 mil réis para os de Areia, 350 para os das vilas da província e 300 para as demais localidades. Era um ato de coragem e pioneirismo, naquele ambiente em que se desprezava o valor do magistério.
 
Joaquim da Silva exerceu o importante papel de semeador, “que silenciosamente via suas plantas crescerem e darem bons frutos. Um mestre que formou outros mestres, que reproduziram, em outros espíritos, o próprio espírito do velho mestre-escola.”
 
O seu Manual do Estudante de Latim, mais de 100 anos depois, mereceu comentário elogioso do acadêmico e filólogo Antonio Houaiss, segundo relato de Sales Gaudêncio, que com ele esteve, numa entrevista memorável. Foi obra de grande relevo, numa época em que a eficácia do aprendizado era quase impossível ou improvável: meninos pobres deixavam de escrever por não terem papel... Se os pais, por sua indigência, não podiam comprar os necessários cadernos para os filhos, muito menos poderiam ter acesso a uma Gramática. Ensinar, assim, era quase um milagre.
 
Do livro mencionado, de grande valor acadêmico, chamou-nos a atenção a referência a um relatório de 1851, elaborado pelos presidentes de Províncias: “A Província não possui os prédios precisos, nem receita tão elevada que lhe seja dado mandá-los construir. Ora, pagar mal ao magistério de primeiras letras e sobrecarregá-lo ainda, quer com aluguel da sala para a escola, quer com a despesa de aquisição de móveis e utensílios, sem os quais é impedida de funcionar, é fato sobremodo inadmissível.”
 
Pelo que se vê – e isso foi objeto de uma conversa com Sales Gaudêncio, hoje Secretário de Estado de Educação da Paraíba, ainda temos grotões, em determinadas regiões do país, em que não estamos muito distantes daquela triste realidade. Foi com o intuito de educar a juventude que Joaquim da Silva empenhou a sua vida. Além dos versos de Virgílio e Horácio, de que era usuário, procurou mostrar a interdependência de educação e cultura, construindo obras em Areia que até hoje testemunham o seu heroico empenho. Fez bem Sales Gaudêncio em reviver os sonhos e as realizações desse grande brasileiro.
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