Crônicas

A hora da pedagogia do Diálogo
Arnaldo Niskier

Medida Provisória não é o ideal para reformar a educação, mas se fôssemos esperar por uma ação legislativa íamos ter que aguardar muito tempo.  Foi o que levou o ministro Mendonça Filho a assinar a MP de 23/9/16, graças a Deus escoimada das restrições iniciais a quatro disciplinas que  não deveriam ser cortadas do currículo: Artes, Educação Física, Sociologia e Filosofia.
 

Valorizando Português, Matemática e Inglês, o novo instrumento legal deixa entreaberta a porta para outras matérias essenciais, como Robótica, Criação Literária e Software.  É sinal dos novos tempos que vêm por aí, caracterizando a necessária flexibilização de que tanto se fala.  O aluno, a partir do ano letivo de 2018, passará a dispor de uma oferta mais inteligente de currículo.  Espera-se que tais correções aconteçam na discussão definitiva da Base Nacional Curricular Comum (BNCC) – e que isso venha com a brevidade possível.


O certo é o MEC sozinho não  vai muito longe.  Precisa do indispensável apoio das Secretarias Estaduais de Educação, às quais incumbe zelar pelo ensino médio.  Veja-se que, em nível nacional, dois Estados estão se destacando: Pernambuco e Amazonas.  Por que isso? Simplesmente porque implantaram pioneiramente o tempo integral em seus respectivos sistemas.  Funcionam em boa parte das escolas no horário elástico das 7 às 17h30, o que é uma notável conquista, que já vai sendo seguida também por Piauí  e Goiás.  É disso que mais precisamos para ter os fundamentos da renovação pretendida.


Todo esse trabalho será desenvolvido numa intensa parceria com os sistemas estaduais de educação, que respondem por 97% das matrículas do ensino médio público.  A eles caberá indicar quais as disciplinas que deverão ser ofertadas na metade aberta do currículo, dentro das seguintes áreas determinadas: Linguagens, Matemática, Ciências Sociais e Humanas, Ciências da Natureza e Formação técnica profissionalizante.  Quem já tiver conhecimentos de Inglês e  Informática, por exemplo, poderá ser liberado ou pular de série, a fim de ganhar tempo.  E a segunda língua estrangeira moderna, que já foi o Francês, será agora o Espanhol, para facilitar negócios com os nossos vizinhos.

Esses fatos coincidem com o centenário de “Democracia e Educação”, obra lapidar de John Dewey, que foi o livro de cabeceira de Anísio Teixeira na sua temporada nos Estados Unidos.  Aos professores toca a responsabilidade de dizer tudo aos seus alunos, desnudando todas as visões, a fim de que eles possam escolher livremente o caminho a seguir, sem amarras.  Isso volta hoje com força total.


A nova escola média precisa de horários extensos, mas não dispensa laboratórios, quadras e auditórios.  Deve experimentar o uso das salas de aula invertidas, a fim de dar ao professor a possibilidade de orientar a aprendizagem, muito mais do que dirigir de cima para baixo o processo  de aprendizagem.  Será de extrema utilidade que se empregue a “pedagogia do diálogo”, na relação entre alunos e professores, como nos aconselha o educador português Antonio Nóvoa.
 

E nessa viragem que se faz necessária, temos o imenso potencial da educação à distância para explorar devidamente, de forma competente.  

 
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