Crônicas

A Perda de um campeão
Arnaldo Niskier

 

Há pessoas que se destacam, na vida, por dotes incomuns de inteligência e espírito de iniciativa. Giulite Coutinho foi uma delas. Tornou-se campeão sem nunca ter vestido a camisa da seleção. Mas foi fundamental na reorganização do futebol brasileiro, que saiu dos tempos difíceis da CBD para as vitórias assinaladas pela CBF, que Giulite presidiu por dois mandatos, de 1980 a 1986, criando as bases sólidas do nosso esporte preferido – e também aquele que nos deu as maiores alegrias. O pentacampeonato mundial deve muito ao seu pioneirismo e seriedade.
 
Estivemos juntos em diversas oportunidades recentes. Sempre lúcido e preocupado com o nosso América F.C., Giulite falava do sonho de realizar na Baixada Fluminense o projeto de uma grande escola de formação de craques, o que agora está mais próximo de acontecer, com a ida de Romário para dirigir o futebol do clube campeão do centenário (1922).
 
Infelizmente, Giulite não estará entre nós. No sábado passado, enquanto a TV Globo passava as cenas do jogo Botafogo x Resende, o locutor repetia sempre que era no “Estádio Giulite Coutinho, com um gramado impecável”, o patrono daquela construção, em Edson Passos, morria dramaticamente, vítima de um malfadado implante dentário, aos 87 anos de idade. Foi cedo, para quem transmitia ainda tanta energia aos seus amigos e aos fiéis torcedores do diabo rubro. Era uma frase que ele repetia sempre: “Desistir, jamais!”
 
Conheci Giulite, de uma família mineira de 16 irmãos, na década de 50. Foi diretor, vice-presidente e presidente do América, dando muita vida ao Clube de Campos Sales, numa época em que a equipe principal tinha grandes craques e uma entusiasmada torcida tijucana. Num dos nossos almoços, no restaurante do Clube Suíço, ele recordava o título de 1960, além de ter de memória a enorme sequência de vice-campeonatos conquistados pelo AFC. “Se não tivéssemos sido prejudicados por alguns juízes, poderíamos ter alcançado outros títulos”, dizia ele, enquanto apontava os craques do seu tempo de presidente da CBF: Falcão, Zico, Sócrates, Júnior e outros, astros de uma esplêndida equipe, na Copa de 82, na Espanha, dirigida pelo técnico Telê (mineiro como ele), mas com uma derrota inexplicável para a Itália, que nos eliminou. Ele sempre dava sinais de inconformismo.
 
Giulite Coutinho foi também um grande empresário do comércio exterior brasileiro. Abriu as portas da China para um grupo de industriais brasileiros e seus esforços foram reconhecidos pela Confederação Nacional do Comércio, com a outorga do seu maior prêmio, que é o Troféu Mascate. Lembro dessa homenagem, feita no centro da cidade do Rio, com muitos amigos que estavam tão felizes quanto ele. Mas nada, em sua vida, se comparava à paixão pelo América. Preocupava-se com a equipe, com a direção do clube, com o seu Conselho Deliberativo, com a falta de dinheiro e, falando baixinho, como bom mineiro de Visconde do Rio Branco, confessava que havia levado mais uma “mordida” financeira, sem qualquer esperança de retorno. “Também, dizia ele, é o investimento que me deixa mais satisfeito.” Todos sentiremos muito a sua falta.
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