Crônicas

O déficit de escrita
Arnaldo Niskier

Vive-se o convencimento generalizado de que lemos muito pouco (o índice é de menos de 2 livros por ano).  Nos últimos tempos, surgiu uma estranha doença entre os nossos jovens, por mim batizada de DE (Déficit de Escrita).  Se as Sociedades Médicas ainda não se manifestaram é por pura distração, pois o fenômeno já se encontra plotado nos registros escolares.
 
Depois de criticar os exageros do internetês, praga que se avoluma entre os usuários dos computadores, desde a mais tenra idade, chamei a atenção dos alunos da Fundação Cultural e Educacional São José, de Itaperuna (RJ), na aula magna deste ano, para os efeitos perversos do emprego desta falsa linguagem.
 
Quando os jovens são chamados aos concursos públicos, o que, felizmente, está ocorrendo com frequência cada vez maior, a falta de familiaridade com a norma culta da língua tem levado a resultados desastrosos, como assinalam os famosos Exames de Ordem da OAB. As reprovações acontecem em massa (às vezes o índice é de 80%). Lê-se pouco e escreve-se mal, o resultado só pode mesmo ser deprimente. Isso infelizmente alcança também os exames para o magistério.
 
Ocorreu-nos proclamar a necessidade da volta da caligrafia às nossas escolas.  Nos bons tempos, ela era praticamente obrigatória, com os educandos levados a preencher as  linhas paralelas com letras, sílabas e  palavras  que, como consequência, nos traziam o conforto de uma adequada expressão escrita. Aos poucos, o hábito foi sendo superado e, para muitos, o exercício da caligrafia era a comprovação da obsolescência dos nossos métodos. Nada mais triste do que essa falsa visão de modernidade, hoje agravada pela fúria do acesso aos computadores de qualquer maneira.
 
O uso das máquinas (blackberry, por exemplo) acelera as respostas, dá uma grande agilidade aos dedos, mas não facilita o raciocínio, que requer mais tempo para que os neurônios se organizem, de maneira disciplinada e inteligente, nas caixas cranianas. Rápido e mal feito parece ser uma frase que se aplica com muita propriedade a esse processo de comunicação que sacrifica a qualidade do nosso idioma, que já é difícil pela sua própria natureza.
 
Do jeito que as coisas caminham, e com essa velocidade, coloca-se em risco a sobrevivência da nossa língua inculta e bela, como dizia, no começo do século passado, o inesquecível poeta Olavo Bilac.
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