Crônicas

O Brasil rejeita Terrorismo
Arnaldo Niskier

A primeira emoção forte que senti, na Olimpíada de 2016, foi quando carreguei a tocha olímpica no centro da cidade. Certamente, um sentimento único, que não se repetirá jamais.
 
A segunda emoção, no mesmo grau, foi ter comparecido à cerimônia, no Palácio da Cidade, em que se prestou homenagem à memória dos 11 desportistas de Israel que foram assassinados por terroristas do “Setembro Negro”, em 1972, na Olimpíada de Munique. Um gesto fisiologicamente covarde e que contraria o espírito de congraçamento prevalecente em todos os Jogos Olímpicos.
Depois disso, uma outra surpresa, ressaltada na bonita noite de inverno no bairro carioca de Botafogo, quando foram acesas as onze tochas por personalidades brasileiras e israelenses, entre as quais parentes das vítimas dessa incrível bestialidade.
 
Ouvimos comovidos discursos de Tomas Bach, presidente do COI, de Carlos Arthur Nuzman, presidente dos Jogos Olímpicos de 2016, rabino Nilton Bonder e, a nosso ver, o mais importante deles, que foi o ministro José Serra, em nome do presidente Michel Temer. Disse o nosso chanceler que “o Brasil rejeita terrorismo e por isso não podia entender porque a organização da Olimpíada vem se recusando, sistematicamente, a abrir os Jogos com um minuto de silêncio, para lembrar as onze vítimas israelenses”. Dizem que isso acontece por causa da ameaça de boicote dos árabes.
 
Este ano, pela primeira vez, houve um considerável avanço, com a solenidade promovida na sede da Prefeitura. Todos os oradores, inclusive parentes das vítimas, apelaram para o COI no sentido de que, na abertura da Olimpíada de Tóquio, daqui a quatro anos, não se deixe de promover essa justa homenagem.
 
Não se pense que se trata de coisa simples. Na Arena Olímpica do Rio de Janeiro, depois de conquistar merecida medalha olímpica, o atleta israelense Or Sasson estendeu a mão para cumprimentar o egípcio El Shehaby, mas ficou sem resposta. Foi-lhe recusado o cumprimento, numa atitude que é oposta ao que apregoam as autoridades do Comitê Olímpico. Uma amiga minha perguntou ao atleta sabra de judô como ele havia se sentido com a atitude do seu adversário. A resposta foi direta: “Não é a primeira vez!”
 
Essa prova de intolerância, que se espera não aconteça mais, contraria os anseios mais legítimos do espírito olímpico, que exalta sempre as virtudes do congraçamento entre os povos. Não é possível acreditar que nações árabes, legitimamente constituídas, povos que são igualmente de origem semita, não prezem os valores permanentes da paz e se recusem ao saudável entendimento. Por isso mesmo, merece louvor a atitude pública do governo brasileiro, representado por seu ministro das Relações Exteriores, quando teve a coragem de exaltar a memória dessas vítimas e prestigiar as orações para que atitudes semelhantes não venham mais a ocorrer. O esporte não foi feito para a guerra, mais sim para a vida.
 
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