Crônicas

A ausência do Brasil na França
Arnaldo Niskier

 

Há um clima extremamente favorável ao restabelecimento, em grande estilo, das relações culturais entre o Brasil e a França. Até a II Guerra Mundial vivíamos em permanente lua de mel, embalados pelos efeitos concretos da latinidade prestigiada e reconhecida. Depois, a nossa segunda língua estrangeira moderna tornou-se monotemática, com o avassalador predomínio da língua inglesa. O crescimento em nuvem da informática deu curso a essa troca, que se consolidou sem plebiscito.
 
 Hoje, há algo de novo no ar, além dos aviões militares Rafale, testados com sucesso nos ataques à Líbia. A visita de uma semana a Paris revela fatos no mínimo curiosos, como a popularidade de Lula. As conversas com motoristas de táxis, grandes sensores do que pensa o povo, em geral, podem levar a uma notável conclusão: quando declinamos a condição de brasileiros, a reação deles não é mais falar em Pelé ou Ronaldo Fenômeno. O nome que explode, quase por unanimidade, é o do nosso ex-presidente. É claro que o fato merece uma análise mais profunda.
 
 Para que esse momento de convergência possa atrair bons resultados, também em termos geopolíticos, é essencial um grande esforço, de parte a parte. Ao assistir à original matinée literária, promovida na Sorbonne Nouvelle, para discutir a obra de dois grandes acadêmicos e escritores brasileiros, Ana Maria Machado e João Ubaldo Ribeiro, em francês e em português, espantou-nos a afluência de estudantes e pesquisadores falantes da língua de Machado de Assis: eram mais de 200, num entusiasmo contagiante.
 
Ao final da sessão de três horas, o anti-clímax: os jovens se queixaram de que o Governo francês havia cancelado os concursos públicos para professores de língua portuguesa, sob argumentos pueris. Convenhamos, uma atitude pouco inteligente das autoridades.
 
E tem o nosso lado. No 31º Salão do Livro de Paris, uma impressionante demonstração de pujança da indústria livreira, com milhares de visitantes e compradores, o Brasil não se fez representar. Foram homenageados escritores nórdicos e a cidade de Buenos Aires (considerada pela Unesco, em 2011, capital da cultura mundial). Nosso país, nada. Não se entende o silêncio  do Ministério da Cultura.
 
 A queixa não para aí. Ao perguntar pelas ações da outrora vibrante Casa do Brasil em Paris, somos informados de que ela vive grandes dificuldades, geradas  pela má condução do problema, por parte do Governo Federal.
 
Se agimos  assim, desprezando nossas afinidades culturais, bem se pode imaginar o futuro dessas relações, aparentemente promissoras. Não é hora  de reagir?
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