Crônicas

Quando o ensino superior é inferior
Arnaldo Niskier

A história não é recente. Vem de muitos anos e começou a ser notada depois da criação de cursos superiores de medicina no Rio de Janeiro, especialmente nos municípios de Vassouras, Valença e Teresópolis. Conheço as três Faculdades e posso garantir que, em todas elas, encontramos alunos oriundos de outros Estados.

É comum conversar com mineiros, paulistas e capixabas, que completaram o ensino médio em suas cidades de origem, mas na hora do vestibular vieram tentar a sorte no Rio de Janeiro, onde , aliás, o mercado para futuros médicos é bastante apetitoso. Há muitos hospitais federais, remanescentes do tempo em que o Rio foi capital política do país, e os concursos são constantes.
 
Agora, o problema tornou-se agudo na própria cidade do Rio de Janeiro. Movidos pela convicção de que os candidatos cariocas têm graves deficiências na formação média, jovens paulistas, inclusive de cidades do interior, como Campinas e Ribeirão Preto, estão se transferindo para as últimas séries do ensino médio do Rio, a fim de fazer o Enem que se tornou verdadeira tábua de salvação, apesar de todos os seus defeitos até aqui insanáveis.
 
Como disse a uma senhora preocupada com o destino da sua filha, nada disso poderá nos levar ao recurso das cotas “geográficas”. Já temos experiências com relação aos afrodescendentes, também existe a reserva para alunos da rede pública, se inventarmos mais um privilégio (o que contraria dispositivos constitucionais), certamente estaremos prestando um desserviço ao ensino superior brasileiro.
 
Então, qual seria a solução? Se os exames são universais, ou seja, abertos a todos, e a eles têm acesso estudantes de todos os Estados, sem restrições, como impedir essa espécie de invasão dos mais bem preparados? A professora Lílian Feingold Conceição, que vem acompanhando o tema, argumenta que seria conveniente seguir de perto o que se faz em algumas universidades como a Unicamp.

É interessante a sua ação de acompanhamento das ocupações das vagas destinadas aos alunos cotistas, para ter a exata dimensão do que está ocorrendo em termos dos rendimentos, em função do acesso desse grupo ter um elemento diferente do mérito exclusivamente acadêmico. Deveria, então, interessar às universidades o destino dos alunos de forma bem mais ampla, incluindo o que talvez seja o aspecto mais importante da formação profissional: o local de trabalho (onde os jovens irão ter os seus primeiros empregos). Deveríamos acompanhar os elementos que facilitam ou dificultam a continuidade dos estudos e a inserção profissional desses alunos recém incorporados nas universidades distantes dos seus domicílios.
 
Voltando ao Rio, formamos os médicos, eles fazem aqui mesmo a sua “residência”, que é  obrigatória, e depois retornam às suas cidades. Ou ficam por aqui, disputando vagas com os que nasceram nesta região.
 
Não se tem como estabelecer uma reserva de mercado. O que é preciso fazer, isto sim, é melhorar a qualidade do ensino médio fluminense, de um modo geral, a fim de garantir condições de competitividade mais adequadas. É claro que isso nada tem a ver com certas barbaridades cometidas pelos antigos cursinhos de São Paulo, que chegam a oferecer automóveis para os melhores classificados, como se o vestibular fosse um programa de televisão. Isso tudo tem a ver com maiores estímulos aos professores, desde a formação até a remuneração adequada.
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