Crônicas

A Falta de Moacyr Scliar
Arnaldo Niskier

 

“Por que morrer antes do tempo?”
 
A frase é do Eclesiastes 7, 16-18. Logo depois, no mesmo Eclesiastes (8,8), o complemento: “Ninguém tem poder sobre a morte.”
 
São lembranças que me ocorrem, quando devo escrever algumas palavras sobre a extraordinária figura humana que foi o médico e escritor Moacyr Scliar, com quem tive o privilégio de conviver, na Academia Brasileira de Letras, desde a sua entrada em 2003. Além do escritor muitas vezes premiado e do médico devotado à causa da Saúde Pública. Moacyr Scliar era extremamente agradável no convívio com os seus pares. E de um dinamismo a toda prova.
 
Na vida, como conhecem tão bem a sua querida Judith e o filho Beto, não havia brechas. Se o avião o trazia de Porto Alegre, às quintas-feiras, com folga na programação, ele aproveitava o tempo, antes das sessões acadêmicas; pedia à D. Carmen um computador, e escrevia compulsivamente. Os minutos eram preciosos, precisava entregar a colaboração semanal da “Folha de São Paulo”, aquela era a chance.
 
Outra característica, a sua permanente disponibilidade. Tinha enorme prazer de falar aos jovens, despertando vocações adormecidas, como vi acontecer, diversas vezes, quando brilhava nas Maratonas Escolares, com o seu jeito peculiar, carinhoso e extremamente agradável de discorrer sobre a profissão. Invariavelmente, fazia declarações de amor ao Brasil, que acolhera carinhosamente a sua família, no Rio Grande do Sul, permitindo que todos vivessem com dignidade.
 
Autor de mais de 70 livros, foi três vezes vencedor do Prêmio Jabuti, com os romances “Manual da paixão solitária” e “Sonhos tropicais”, além do livro de contos “O olho enigmático”, lançado em 1988. Estreou na literatura em 1968, com a coletânea de contos “O carnaval dos animais”, utilizando a parábola como seu método preferido. Assim pôde driblar, com inteligência, as agruras do regime militar, com a força da sua linguagem, que fez sucesso em diversos países onde suas obras foram traduzidas.
 
O livro “O centauro no jardim”, de 1980, para muitos o seu mais importante romance, foi incluído na lista dos 100 melhores livros de temática judaica dos últimos 200 anos, organizada pela National Yiddish Book Center, dos Estados Unidos, em que analisa com propriedade os múltiplos segredos da alma humana.
 
Vou lhes confessar um segredo da nossa intimidade judaica. Em quase todos os lares da comunidade israelita brasileira, nos dias sagrados da Páscoa, o livro utilizado é uma adaptação feita por Scliar da Hagadá, livro de rezas, em que se recorda a odisseia do “povo eleito”, conduzido por Moisés, nos 40 anos de travessia do deserto. É um primor de elaboração, escrito com a emoção de quem via nos pais os melhores exemplos de fidelidade aos seus princípios. Aliás, ele sempre dizia que o amor à leitura era devido à insistência com que a mãe Sara lhe indicava livros preciosos. Pode ter nascido assim a sua paixão pela obra de Kafka. Scliar, com o seu humor suave e penetrante, fará muita falta à literatura brasileira.
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