Crônicas

Do genoma artificial à educação do futuro
Arnaldo Niskier

 

Estamos vivendo momentos incríveis, com repercussão em todos os campos do conhecimento. A educação, forçosamente, sofrerá os efeitos dos chamados “novos tempos”. Acaba de ser criada a primeira célula viva controlada por um genoma artificial. O feito do cientista americano Craig Venter, o mesmo que em 2000 descobriu o sequenciamento do genoma humano, trará consequências na geração de biocombustíveis, na retirada de poluentes da atmosfera e na produção muito mais rápida e eficiente de vacinas.
 
Não se pode deixar de considerar a vida artificial sem uma grave preocupação com os princípios da bioética, que é essencial no fascinante e desenvolvido campo da genética. Craig Vener não é o novo Deus da vida sintética, mas deve ser visto como o gênio que abre, para a humanidade, uma era de espetaculares conquistas para o aperfeiçoamento da nossa existência, digo nossa porque pode alcançar a atual geração de que fazemos parte. Essa conquista nasce sem mãe, mas o pai certamente é o computador.
 
Como a educação ficará de fora desses avanços? Já será possível acompanhar os gols da Copa do Mundo de Futebol por intermédio dos celulares. Outro dia, um professor parou diante de um celular e disse, pausadamente: “Dona Ruth, residência.” O aparelho fez a ligação sem qualquer interferência das mãos do seu proprietário. Reconheceu a voz do usuário. É muito progresso – e a educação não poderá deixar de acompanhar essas notáveis conquistas.
 
Se a educação do futuro nos reserva surpresas positivamente agradáveis, em matéria de auxílio aos professores, no presente estamos nos estruturando para enfrentar os desafios da gestão pública. Em São Paulo, numa parceria do Centro de Estudos e Pesquisas de Administração Municipal (Cepam) e a Rede Paula Souza, que administra 162 escolas técnicas estaduais (Etecs), criou-se a primeira Escola Técnica Regular de Gestão Pública do país, com a finalidade de formar adequadamente os técnicos em administração pública, num curso de ano e meio, com alunos que estejam no mínimo na segunda série do ensino médio.
 
 A origem do projeto foi a verificação de que há uma grande escassez de técnicos de nível intermediário para operar em administração pública, nas prefeituras paulistas. A Etec-Cepam tem o seu foco voltado para a prática, ensinando os alunos a conhecer de perto os mistérios do mercado de trabalho. Prevê-se que no prazo de até um ano depois da conclusão do curso, com certeza, cerca de 80% dos alunos poderão estar empregados.
 
Nesse retrato de corpo inteiro da educação brasileira, que estamos procurando apresentar, vale a pena referir à opinião do representante da Unesco no Brasil. Segundo Vincent Defourny, “a apatia dos estudantes está diretamente relacionada à baixa qualidade do ensino e à necessidade do jovem de começar a trabalhar mais cedo.” É por isso que a taxa de evasão dos estudantes de 17 e 18 anos, mesmo nos grandes centros, está em torno de 43%, até porque o currículo de 12 matérias, sem o caráter de multidisciplinaridade, que é essencial, tem tornado as aulas quase insuportáveis.
 
A intenção do Governo federal, expressa no Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), é altamente louvável, com recursos que estão sendo repassados, há cerca de três anos, para a construção de creches (poucas), a compra de ônibus escolares, a reforma e modernização de escolas estaduais e municipais, a ampliação da rede federal de educação profissional e a tentativa de implementação do piso salarial dos professores (em São Paulo, para 40 horas, é de 1.835 reais, cerca de 80% superior ao piso nacional de salários do governo federal). Discrepâncias que são usuais em nosso sistema de ensino. Um aluno que mude de escola ou saia de um estado para outro, sentirá enorme diferença, mesmo no setor público.
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