Crônicas

Crise no mercado Editorial
Arnaldo Niskier



Em reunião da Academia Brasileira de Letras, quando são apresentadas suas efemérides, discuti o atual quadro de leituras em nosso país. Podemos inferir que os índices são baixos. Quanto ao futuro, não nos parece dos mais promissores. Livrarias tradicionais, como a Saraiva, a Cultura e a FNAC estão com dívidas imensas e as perspectivas são trágicas, pois os recursos para a cultura são ínfimos, sem qualquer movimento de drástica mudança. Consequentemente, não estão repassando os pagamentos devidos às editoras, afetando o funcionamento das mesmas.

O problema do mercado editorial começou há alguns anos, com a chegada de gigantes do mercado eletrônico, como a Amazon, que fez diminuir o número de compradores tradicionais. Para piorar, acontecimentos factuais, como a greve dos caminhoneiros, colaboraram para trazer ainda mais incertezas. Demissões e redução de lançamentos passaram a ser recorrentes, como uma forma de tentar combater a crise e evitar a descontinuidade dos negócios.

Apesar do recrudescimento da crise observada nos últimos dois anos, o faturamento do mercado editorial brasileiro vem caindo há doze anos, segundo o estudo “Desempenho real do mercado livreiro”, da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), encomendado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicado Nacional dos Editores de Livros (SNEL). Entre 2006 e 2017 houve encolhimento de 21%, correspondendo a uma perda de R$ 1,4 bilhão. Essa pesquisa específica é baseada nas vendas para o mercado em geral e para o governo, e está dividida em quatro subsetores: didáticos, religiosos, científicos, técnicos e profissionais (CPT) e obras gerais (ficção e não ficção). Nesse último segmento, considerado o principal indicador de avaliação do hábito de leitura no país, a queda foi mais significativa: 42%. Além do menor número de exemplares vendidos, houve no período o barateamento do preço médio do livro. Traduzindo: mesmo com o crescimento da população, o consumo per capita de livro ficou ainda menor.

Já a pesquisa “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro Ano-Base 2017,”, feita pelo mesmo instituto, mostrou que, em 2017, as editoras brasileiras imprimiram 393,3 milhões de exemplares, dos quais foram vendidos 355 milhões. O faturamento apurado chegou a R$ 5,17 bilhões. Foram editados 48,88 mil títulos, sendo que 16,1 mil correspondem a lançamentos. O principal canal de venda das editoras foram as livrarias, com 118,09 milhões (53,11% do total), enquanto nas livrarias exclusivamente virtuais a comercialização chegou a 6,47 milhões (2,91%).

Quando analisamos friamente os dados, aparecem as notícias negativas: houve queda de 5,67% em relação ao total de títulos e de 7,45%, levando em conta apenas os livros novos. Em termos gerais, houve recuo de 7,94% quando o levantamento abrange o total de exemplares produzidos em 2017. A redução das compras do governo acentuou os números negativos, o que lamentamos profundamente.

Esperamos que com a entrada do novo governo haja mudanças nos hábitos e no comportamento da população, e finalmente ocorra a retomada do setor editorial. Para que isso seja possível, vamos depender do crescimento sustentado da economia e da implementação de políticas de longo prazo, para que o hábito de leitura aumente no país. Insistimos que toda e qualquer medida a ser adotada deve focar na melhoria do ambiente escolar. Os professores precisam ser orientados a estimular os alunos sobre a importância da leitura, como uma opção prazerosa e como fonte de conhecimento.

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