Crônicas

O triste fim de Villarino
Arnaldo Niskier



A localização, no centro da cidade, não poderia ser melhor. A Casa Villarino, que acaba de fechar, fez parte da vida cultural do Rio de Janeiro. Entre seus fregueses, em épocas distintas, podemos anotar Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Ari Barroso, Dolores Duran, Elizeth Cardoso, Antonio Maria, Aracy de Almeida, Paulo Mendes Campos e, eventualmente, Di Cavalcanti e Dorival Caymmi, além de muitos outros, boêmios ou não.

Considerado “o endereço da bossa nova”, pela sua privilegiada localização, defronte à Academia Brasileira de Letras, acolheu para o seu bacalhau amigo muitos imortais, que frequentavam as abençoadas mesas de madeira, legítimos botequins de uma época de ouro do Rio de Janeiro.

Pode-se afirmar que foi mais uma vítima fatal da Covid-19. Com o início da pandemia, no começo deste ano, o comércio do centro da cidade foi reduzido a 20%. O Villarino aguentou o quanto pôde e agora fechou as portas. É claro que fará muita falta, inclusive ao autor destas linhas.

Lembro que as paredes do tradicional restaurante eram adornadas por enormes fotos com as personalidades aqui citadas. E tiveram também pinturas de Di Cavalcanti, lamentavelmente apagadas pelo novo proprietário, nos anos 70. Agora, qual será o destino desses tesouros?

Era um bar, restaurante e mercearia, que nasceu como uisqueria no ano de 1953. Naquela época, o centro da cidade fervilhava, com artistas e autores que no Villarino discutiam sobre as suas obras, como aconteceu com o famoso “Orfeu da Conceição”, montado ali perto, no palco do Teatro Municipal. Foi um dos trabalhos de grande repercussão da dupla Tom e Vinícius.

Certamente, como diz a música, a cidade não deixará de cantar, de sorrir, de viver a beleza de amar, “como o sol, como a flor, como a luz.” Essa é a vocação do Rio, apesar dos percalços vividos por essa indesejada pandemia. O que se espera é que essa reviravolta não demore muito tempo. Ao contrário, que logo se restabeleça a sonhada normalidade. E que ela traga de volta o fascínio de locais fundamentais como sempre foi o Villarino. Quem viver, verá.

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