Uma nova língua
Arnaldo Niskier - 2011-12-30
Um indivíduo levou uma pancada na cabeça. Demorou 20 anos para se recuperar. Quando finalmente acordou, pensou que estava em outro mundo. Não entendeu nada do que diziam os jornais e as pessoas à sua volta.
Olhou uma página digital. Depois de 10 minutos de garimpo, pediu socorro ao médico que o atendia. Achava que tinha ficado louco.
Não era para menos. Leu que o IRF ANVIEW permite fazer conversões de várias imagens ao mesmo tempo. Se quiser utilizar alguns programas gratuitos no seu PC com Windows, é preciso ver a lista de aplicativos. Vai além e registra que o VLC Player é uma excelente opção para ver vídeos e filmes no formato. AVI. E reconhece que toca músicas com uma fidelidade maior que a do Windows Media Player. A enfermeira ajuda, dizendo que as fotos de um bebê podem ser organizadas pelo F-Spot, gerenciador grátis para Linux. Lembrou do sobrinho que não via há muito tempo.
O nosso herói aprende ainda que o formato. RMVB é mais compacto, baixa da internet mais rápido e pode ser visto no Media Player Classic. Fica animado quando sabe que o Winamp ganhou até versão para Android e desconfia que esse é um assunto para amantes da música. Logo sua atenção se volta para o AVG Free, boa alternativa para proteger o PC. Quase desiste quando verifica que o BrOffice edita e salva documentos em formato Word, Excel e Power point e ainda pode exportar para PDF, que ele não sabe o que é. Nem Blackberry.
Descobre que um cientista da Universidade de Osaka, no Japão, criou um minirrobô que pode virar o smartphone do futuro e imita movimentos humanos.
Como tinha parado de estudar aos 16 anos de idade – e nada disso era falado há 20 anos – levou um baita susto. O desenvolvimento científico e tecnológico havia se expandido rapidamente em especial no campo da informática, que antigamente chamavam de cibernética, termo criado por Norbert Wiener: “Deve-se dar ao homem o que é do homem e à máquina o que é da máquina.” Até aí ele lembrava.
Ouviu um pouco sobre o significado de Facebook, Twitter, Google, Gmail, tablets, thumbnails, Youtube, plugin, startup, chrome, IPhone, IPad etc. Espantou-se ao saber que foi uma garotada que bolou isso tudo. E ficaram bilionários com os seus inventos, nascidos em grandes universidades norte-americanas.
O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, editado pela Academia Brasileira de Letras, tem perto de 400 mil verbetes. É uma das 10 línguas mais faladas do mundo, abrangendo povos que chegam a 240 milhões de falantes. É por essas e outras que existem movimentos de valorização do nosso idioma. É uma forma, na verdade, de tentar uma reação à parafernália eletrônica de que é pródiga a inclusão digital.