Crônicas

Livro, produto de Elite?
Arnaldo Niskier



Dentre os muitos equívocos do governo federal, sobretudo nas áreas de educação e cultura, um dos maiores talvez seja a pretensa taxação do livro. Na discussão em torno de novos impostos, o Ministério da Economia vitimou esse precioso instrumento, como se o livro fosse apenas um produto de elite. Parte do princípio de que só pode comprar quem tem dinheiro, o que é uma afirmação profundamente lamentável.

Acena com o paternalismo ao prometer que o Governo dará livros de graça aos pobres. Quem fará essa escolha dirigida? Em épocas não muito distantes, a classe C passou a adquirir livros, povoando as livrarias com o seu patriótico desejo. Agora, vê-se o triste espetáculo do fim das megas livrarias, como aconteceu com a Saraiva. Não é boa, também, a perspectiva das pequenas editoras, a menos que alguém tenha a luminosa ideia de incluir os livros, como se faz no Uruguai, entre os itens obrigatórios da cesta básica.

É claro que todos desejamos um país melhor e mais preparado. Precisamos de mais leitores na sociedade digital que se anuncia, com as transformações que naturalmente ocorrerão.

Mesmo nos tempos de pandemia, mantive a frequência ao programa “Identidade Brasil”, no Canal Futura, de belíssima audiência às sextas-feiras à noite. Numa ocasião, à distância, entrevistei o professor e acadêmico Antônio Carlos Secchin, um dos nossos grandes especialistas em poesia brasileira. Ele saudou o centenário de João Cabral de Melo Neto, pernambucano de grande produção literária, que deixou saudades nos colegas que com ele conviveram na Academia Brasileira de Letras.

E provocado por mim, manifestou-se a propósito da ideia de taxar o livro. Como era de se esperar, foi peremptoriamente contrário. Essa história de o governo dar livros de graça aos pobres “é uma lamentável demagogia”. Como colecionador de obras raras, Secchin conhece profundamente o assunto. Combateu o que chamou de dirigismo estatal na escolha do que o pobre deve ou não ler. Ficou claro, no debate havido, que a maioria dos nossos intelectuais não suporta a iniciativa de taxar o livro. O Governo que toma esse rumo certamente se dará mal.

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