Crônicas

Lan, um craque
Arnaldo Niskier



Quando assumi a direção da Secretaria de Estado de Educação e Cultura do Rio de Janeiro, em 15 de março de 1979, o sistema do magistério estava inteiramente paralisado. Greve Geral por melhores salários. Um fato inédito. Naquele mesmo dia, pela manhã, o “Jornal do Brasil” saiu com uma linda charge do caricaturista Lan, retratando a figura do Secretário com um enorme abacaxi e nele pendurado um quadro com a legenda: “Ao Secretário de Educação, com a homenagem dos professores do Rio”. Superei a greve em três dias e guardo a ilustração, no original, como recordação para sempre.

Conheci Lanfranco Vaseli na redação da “Última Hora”, em seus primeiros anos de vida(1952). Ele, nascido na Itália, mas com vivência no Uruguai, fazia desenhos lindos dos craques de futebol daquela época, como os inesquecíveis Zizinho e Ademir da Guia. Ilustravam com primor os feitos esportivos da ocasião, selecionados pela competência de Augusto Falcão Rodrigues.

Quando nasceu a “Manchete Esportiva”, em 1955, Lan ficou encarregado das suas melhores ilustrações. Conheceu uma das irmãs Marinho (Olívia) e com ela casou, passando a morar, por questões de clima, na paradisíaca cidade de Petrópolis, que dividia com o seu apartamento do Leme. Lá, aos 95 anos de idade, veio a falecer, vítima de uma pneumonia fatal. A arte brasileira perdeu uma de suas melhores figuras.

Lan trabalhava nos últimos tempos para “O Globo”. Deslumbrado pela paisagem do Rio de Janeiro, retratava mulheres negras, o samba, o Carnaval, a torcida do Flamengo e a vida boêmia, da qual era aficionado. Cunhado de Haroldo Costa, casado com Mary Marinho, artista de múltiplas qualidades (foi Orfeu na famosa peça musical de Vinícius de Moraes), Lan jamais se separou de outra enorme paixão, que foi a escola de Samba da Portela. Daí a sua famosa frase, dita num depoimento sobre a sua vida: “O samba é alegria até mesmo quando fala de tristeza.”

Lan tinha certeza do que afirmava sempre aos amigos: “É como dizia o Noel Rosa, o samba não nasce nem na cidade nem no morro, nasce no coração.” Depois de sentir a natural reação às suas sábias palavras, concluía: “É chorar de alegria e chorar de nostalgia.” O país hoje chora de saudade.

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