Crônicas

Via Pensiero
Arnaldo Niskier



Num show lindíssimo, que terminou com uma sensacional queima de fogos, em torno da Torre Eiffel, a França comemorou condignamente o seu tradicional “14 de Julho”. Cantoras de diversas nacionalidades se apresentaram num palco só com a orquestra, pois se respeitou a limitação da pandemia.

Uma das músicas mais expressivas foi o famoso “Va pensiero”, trecho da ópera “Nabuco”, de Verdi, em que se expressa a dor do povo hebreu, na Antiguidade. Foi uma oportunidade para recordar as apresentações da mesma música, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, no período de 1980 a 1983, quando presidi a Funarj (Fundação das Artes do Rio de Janeiro), acumulando as funções de Secretário de Estado de Educação e Cultura.

Eram comoventes as apresentações do Coro do TM, considerado um dos três maiores e melhores do mundo. Quando acabava a exibição, em uníssono, a plateia pedia bis. Além da expressividade da letra, havia a qualidade sonora que era uma característica daqueles maravilhosos profissionais.

Vale a pena alguns comentários sobre a música “Va pensiero”. Ela faz parte da ópera “Nabuco”, exibida pela primeira vez em Milão (Itália), no ano de 1842. Naquela ocasião, o país estava dominado pela Áustria. A música transformou-se numa espécie de hino, despertando o patriotismo do povo italiano, que vibrava especialmente quando chegava o trecho em que se canta “Oh pátria minha, tão bela e tão perdida.”

O Coro do Teatro Municipal fez história. Com a sua indiscutível qualidade, apresentou-se muitas vezes e, como diretor, tomei uma deliberação marcante: sempre que fosse ao palco, deveria ser acompanhado ao vivo pela Orquestra do TM. Isso depois se estendeu também ao balé. Não fazia sentido que o acompanhamento se fizesse por gravações. O público percebeu a mudança e passou a prestigiar ainda mais as apresentações oficiais. Foi um tempo glorioso, valorizado sobretudo pelos próprios artistas, muitos dos quais estrangeiros recrutados nas maiores praças culturais do mundo desenvolvido. Mudamos o conceito de que éramos maus pagadores. Até nisso devemos saudar as atitudes do então governador Chagas Freitas, que nos prestigiou em toda linha, pagando tudo rigorosamente em dia.

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