Crônicas

Tempos de Guerra
Arnaldo Niskier

 
É sempre lembrada a famosa declaração do filósofo Theodor Adorno de que escrever um poema depois de Auschwitz seria uma barbaridade. Mas Bertold Brecht, na década de 30, logo antes de Auschwitz, escreveu Aos que vão nascer: “É verdade, eu vivo em tempos negros./ Palavra inocente é tolice. Um teste sem rugas/ Indica insensibilidade. Aquele que ri/Apenas não recebeu ainda/A terrível notícia.//Que tempos são esses, em que/Falar de árvores é quase um crime/Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?//
 
São interessantes as circunstâncias que ocasionaram os escritos do filósofo alemão Friedrich Heinrich Jacobi (1743 –1819). Tendo sido informado de que o filósofo Moses Mendelssohn se preparava para escrever uma obra sobre o caráter e os escritos do falecido Gotthold Ephraim Lessing (1729 — 1781), considerado um dos maiores representantes do Iluminismo, conhecido por sua crítica ao anti-semitismo, Jacobi lhe perguntou, através de uma amiga comum, se sabia que Lessing havia sido um spinozista. 
 
Foi a partir do choque de Medelssohn – pois Baruch Spinoza (1632 - 1677) era tido por panteista ou ateu – que Jacobi escreveu, em 1785, “Sobre a doutrina de Spinoza em carta ao Sr. Moses Mendelssohn”. Ele queria lutar contra as pretensões da filosofia racionalista do seu tempo. Ou seja, contra o ateísmo de Spinoza. O objetivo maior era demolir a filosofia de Spinoza. O ponto central da filosofia de Jacobi é a necessidade de ir além do conhecimento demonstrável, além do saber intelectual para chegar a um conhecimento imediato do absoluto. 
 
Para Spinoza, não existe uma finalidade para a existência do homem e nem para a existência da natureza. Deus não criou as coisas para o uso dos homens, nem para agradá-los nem para que os homens agradem a Deus. Pensar que Deus criou as coisas com algum objetivo, como o de que os homens lhe agradem, é o mesmo que dizer que Deus tem necessidade do agradecimento dos homens, e isso é tornar Deus imperfeito. Na natureza tudo é perfeito, pois tudo vem de Deus e é parte dele. Seguindo esse raciocínio, Spinoza descarta a possibilidade da existência de milagres, pois o milagre seria simplesmente um acontecimento natural do qual não conhecemos as causas.
 
De acordo com Mendelssohn (avô de Félix Mendelssohn-Bartoldy, um dos nossos maiores compositores clássicos, autor da marcha nupcial mais tocada de todos os tempos) Spinoza deixou sem explicação a “diferença entre o bem e o mal”, o desejável e o indesejável, o prazer e a dor”. Sobre isso, a história registra muitas discussões entre Mendelssohn, Jacobi e Lessing, como registra o iluminismo judaico (haskalá).
 
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