Crônica: Bernardo Cabral, uma personalidade múltipla

Arnaldo Niskier - 2026-04-21

Bernardo Cabral é dono de uma personalidade múltipla. Para admirá-lo, na plenitude, só mesmo tendo o privilégio do convívio, como é o nosso caso. Trata-se de uma amizade de mais de 30 anos, que conheceu a  sua glória como político e homem de cultura, para ser também fiel quando o sol parecia ter se apagado, numa condenação injusta. Ele deu a volta por cima.

Este livro, que é uma homenagem aos seus 80 anos, abriga uma das suas virtudes de intelectual: o cronista de amplos méritos, oportuno e literalmente inspirado, num curioso amálgama, que soma o que escreve ao orador brilhante, sempre muito aplaudido em suas diversificadas intervenções.

Foi um dos heróis da Assembleia Nacional Constituinte. Por ele, como relator, passaram  mais de 40 mil emendas, o que dá bem a dimensão do vulto do trabalho enfrentado. Com a inestimável ajuda de mitos políticos como Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Afonso Arinos e Mário Covas, entre outros, pôde reduzir de forma orgânica as contribuições a 2.500 artigos, para chegar aos 245 que compuseram a nossa primeira Constituição Cidadã.

Ao chegar à Câmara, em 1967, jamais poderia supor que a ele caberia uma posição ímpar na concretização da transição democrática, para viver na liberdade plena o Estado de Direito com que todos  sonhamos. Era o destino traçado para o jovem amazonense, hoje uma figura notável da história do Brasil.

Ao ler as suas crônicas, dedico-me com o estilo cristalino que dá sentido aos testemunhos aqui expressos. E não posso me furtar a lhes contar um fato que passou pelos meus olhos. Nomeado por Tancredo Neves para ser ministro da Reforma Agrária, Bernardo Cabral compareceu ao jantar na sede de Brasília da revista Manchete, em que Adolpho Bloch e seus companheiros homenageariam o novo governo.

Sentou-se a mesa principal, como lhe foi determinado, mas surgiu uma figura cerimonial para dizer que, há poucos momentos, Bernardo tinha sido trocado por Nelson Ribeiro na  composição do ministério, e por essa  razão ele deveria deixar o seu lugar à mesa. Coisas da política. Ao tomar conhecimento disso, acerquei-me dele e garanti, com a autoridade de diretor da casa, que ele não seria vítima daquela descortesia. Determinei que ficasse onde se encontrava, para desespero do intruso que dava ordens em nossa casa. Sei que ele nunca se esqueceu disso, mas foi merecedor da homenagem.
   
Há pouco, Bernardo Cabral, figura ilustre do Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, prestou um depoimento histórico, adornado por belíssimos apartes, a respeito do trabalho na Comissão da Constituinte, que deu ao Brasil, no dizer de Ulisses Guimarães, &ldquouma Carta Magna com cheiro de amanhã.&rdquo

É esse o advogado, o professor, o político, o escritor de amplos méritos, academicamente impecável, que devemos saudar, pelo que representa para a cena cultural brasileira. Este livro inspirado nos deixa a sensação de que, hoje, se faz justiça aos reconhecidos méritos de Bernardo Cabral.