Crônicas

Sobral e a gestão escolar
Arnaldo Niskier



Tornou-se comum, no Brasil, fazer referências elogiosas à cidade cearense de Sobral quando o assunto é educação. Fica claro, em todos os momentos, que o sucesso não se deve à existência de recursos expressivos, pois essa não é a realidade, mas a uma exemplar gestão escolar.

Em 10 anos (de 2007 a 2017) a cidade brilhou nos anos iniciais do ensino fundamental, alcançando a nota de 9.1. a mais elevada consideradas todas as cidades do país, para espanto dos nossos educadores.

No 2º ciclo do ensino fundamental (6º ao 9º ano) os estudantes de Sobral mantiveram esse mesmo comportamento, ficando com a média de 7,2. Esse fato tem despertado até mesmo uma certa curiosidade, na avaliação dos nossos professores. O que terá levado a cidade a chegar a esses resultados?

Quem conversa com as autoridades educacionais de Sobral tem conhecimento das razões objetivas do sucesso assinalado: alfabetização na idade certa; livros adequados de treinamento; bônus financeiro para professores e escolas com bom desempenho; autonomia para o trabalho dos diretores.

Existe também a compreensão de que o processo educacional começa desde cedo. Isso se expressa na política educacional destinada à primeira infância. Só em creches o Brasil tem perto de 4 milhões de estudantes – e falta uma orientação oficial que dê cobertura correta a essa faixa etária. Como conviver com tamanho descalabro? São comuns as declarações de que providências estão sendo tomadas. Na prática, nada.

Em Sobral há uma preocupação de envolverem as famílias desde cedo. As consequências são imediatas: aos 4 anos de idade, 74% das crianças são capazes de identificar a maioria das letras. Pouco mais de 3% pronunciam frases simples, o que é previsto para acontecer somente no início do ensino fundamental. São os superdotados ou minigênios?

Se tudo isso se faz com os mesmos recursos que são distribuídos a outros municípios, a consequência natural é de que não é o dinheiro que move a eficácia do processo, mas a vontade política das comunidades envolvidas. O exemplo de Sobral deveria se espalhar pelo Brasil.

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