Crônicas

Lembranças de SW
Arnaldo Niskier



Quando soube que a Companhia das Letras havia lançado o livro “Samuel Wainer – o homem que estava lá” imediatamente quis tomar conhecimento do seu conteúdo. Foi uma personalidade fascinante do jornalismo brasileiro. Eu o conheci no início dos anos 50, quando foi lançado de forma revolucionária o jornal “Última Hora”.

À medida que avancei na leitura, uma série de reminiscências povoou a minha memória, a partir da equipe esportiva, presidida por Augusto Rodrigues, que antes havia trabalhado em “O Globo”, juntamente com os seus irmãos Nelson e Paulo Rodrigues, dos quais me tornei amigo inseparável.

Com os seus dois cadernos e um quadro extraordinário de fotógrafos (Jáder Neves, Ângelo Gomes, Jankiel Gonczarowska) era natural que o jornal fizesse sucesso e logo alcançasse tiragens admiráveis. Tinha grandes nomes do jornalismo, como Paulo Silveira, Edmar Morel, Marques Rebelo, depois Pinheiro Jr., todos capitaneados pelo próprio SW, mestre dos títulos curtos que fizeram o estilo de UH. Ele não foi um diretor omisso ou distante. Ao contrário, estava sempre presente na redação e fazia questão de acompanhar a impressão. Vi isso tudo bem de perto, na época do nascimento do jornal, no bonito prédio da Av. Presidente Vargas (Praça XI).

O livro, de Karla Monteiro, é muito bem elaborado. Cuida-se também da vida amorosa de Samuel, primeiro com Bluma Chafir (uma grande paixão), depois com Danusa Leão e finalmente com Isa. Cita os seus três filhos, que conheci no exílio de Paris, quando os fotografei para uma reportagem de Fatos & Fotos.

A vida movimentada de SW passa também pelos tempos de bossa nova. Muitos dos seus mentores, como Ronaldo Bôscoli e Moisés Fuks, freqüentavam o apartamento da zona sul. Desses dois me tornei amigo e companheiro de Bloch Editores.

O livro trata das relações de Samuel com Getúlio, uma fase marcante da sua vida. O final do presidente gaúcho, com o suicídio no Palácio do Catete, é um verdadeiro filme que se descortina quadro a quadro, para os cultores da história. Acompanhei de perto a aventura do “Domingo Ilustrado”.

Tivemos ainda os tempos de JK. Aborda-se a sua campanha, ao lado de Jango(JJ), as encrencas com Carlos Lacerda(sempre ele) e a famosa greve dos bondes, em 1956, que assisti como presidente do diretório acadêmico da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da então UDF. Houve uma greve memorável contra o aumento das passagens dos bondes. JK, já presidente, recuou da medida e os estudantes puderam comemorar o que foi considerada uma grande vitória.

Vale a pena ler esse livro.

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