Crônicas

Martinho da Vila e a bandeira da fé
Arnaldo Niskier

Nascido em Duas Barras, Rio de Janeiro, em 12 de fevereiro de 1938, Martinho José Ferreira, o nosso querido Martinho da Vila, é considerado um dos maiores representantes do samba e da MPB no Brasil, com toda a razão e com todos os méritos. Filho de lavradores da Fazenda do Cedro Grande, veio para o Rio de Janeiro com apenas quatro anos. Dona Tereza de Jesus e o senhor Josué Ferreira, seus pais, presentearam a cidade com uma pessoa solidária, cordial e elegante que enche de orgulho a todos, tanto pela sua alegria como pela sua arte. Quando se tornou famoso, o cantor comprou a casa em que nasceu e a doou para o Instituto Cultural Martinho da Vila, que funciona no local, oferecendo atividades gratuitas, como cursos de alfabetização, teatro, percussão, cavaquinho, dança de salão, banda de música, artesanato de estábulos e bandeiras de folia de reis. O espaço também mantém uma exposição permanente de objetos pessoais do artista.
 
A história de Martinho da Vila é digna de inspiração para todo aquele que pretende vencer na vida. Criado em Lins de Vasconcelos, sua primeira profissão foi a de Auxiliar de Químico Industrial, com diploma adquirido em curso intensivo do SENAI, Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial. Depois, investiu na carreira militar, servindo no Exército Brasileiro por 13 anos. O início foi na Escola de Instrução Especializada, onde tornou-se escrevente e contador, e chegou ao posto de terceiro-sargento. Acabou desistindo, atendendo ao chamado da música.
 
Escritor e cantor, Martinho já gravou 48 álbuns e realizou diversas turnês nacionais e internacionais. Em 2016, ele cantou no encerramento das Olimpíadas do Rio no Maracanã. Dono de 3 Grammys Latinos na categoria "Melhor Álbum de Samba/Pagode" com os álbuns "Brasilatinidade" (2005), "O Pequeno Burguês" (2009) e "De Bem com a Vida" (2016). A dedicação à escola de samba do coração, Unidos de Vila Isabel, iniciou em 1965, assinando vários sambas-enredo da escola. O auge ocorreu quando criou o enredo da escola “Kizomba: A Festa da Raça!”, que garantiu para a GRES Unidos de Vila Isabel o título do Grupo Especial do ano de 1988.
 
Embora seja músico, cantor e compositor indutivo, Martinho da Vila tem uma vasta cultura musical, com grande ligação com a música erudita. Escritor de livros infantis, infantojuvenis, biografias e romances, é membro efetivo da Academia Carioca de Letras, do PEN Club e da Divine Académie Française des Arts, Letres e Culture.
 
Para marcar os 80 anos de Martinho da Vila, completados em fevereiro, está na praça o CD “Bandeira da Fé”, título do samba composto em parceria com Zé Katimba e que foi lançado em 1983 na voz de Luiz Carlos da Vila, falecido há dez anos. A música também foi gravada pelo saudoso cantor carioca Agepê no ano seguinte. Curiosamente, Martinho nunca havia gravado a obra: foram 35 anos de espera que valeram a pena, pois agora ela registra a homenagem pelas oito décadas de vida do sambista. A letra é otimista: “Vamos levantar a bandeira da fé/Não esmoreçam e fiquem de pé.” O CD foi lançado com pompa no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, numa apresentação acompanhada pela Orquestra Filarmônica do Estado.
 
O álbum, que ele garante ser o último a ser gravado, inclui de fado a samba de breque, além de faixas que trazem uma reflexão sobre o momento atual do país. A luta contra o racismo está em “Ser mulher”, recitada pela jornalista Glória Maria; em “Zumbi dos Palmares, Zumbi”, parceria com Leonardo Bruno; e no samba-rap “O sonho continua”, entoado ao lado de Rappin Hood (letra dos dois e de Juju Ferreira, filha de Martinho), que evoca Martin Luther King e Marielle Franco.
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