Crônicas

Merlí e a Filosofia
Arnaldo Niskier



Os peripatéticos adotavam a filosofia de Aristóteles (natural da Macedônia, 384-322 a.C.): deve-se ensinar caminhando. Pertinho desse princípio, quando conseguiu um emprego de professor, na Catalunha, Merlí Bergeron colocou os seus alunos para andar na escola, promovendo uma visita à cozinha.

Foi o começo de uma bem sucedida experiência de magistério, com muito sucesso entre os seus discípulos. Assim, ele pôde explicar, sempre de modo original, as teorias de Sócrates, Platão, Aristóteles, Schopenhauer, Kant, Foucault, Maquiavel, Voltaire e outros pensadores, na busca incessante da sabedoria. Ele partia da frase inicial de Aristóteles na sua “Metafísica”: “Todo homem, por natureza, é ávido de saber.”

Diante de uma plateia sempre muito atenta, Merlí, interpretado pelo excelente ator espanhol Francesco Orella, explicou que o termo educação deriva-se do latim “educare”, que significa criar, nutrir, acompanhar. Já a palavra pedagogia vem do grego e quer dizer conduzir a criança.

Da classe faz parte o jovem Bruno, seu filho adolescente. Eles participam juntos da fascinante descoberta do mundo do pensamento. O que há de original na série da Netflix é que se procura aplicar a filosofia na prática da vida. Não é um saber inútil. Merlí gosta dos seus alunos e é retribuído. Vai além da simples obrigação de lecionar, o que faz com muita competência e se envolve em problemas particulares, ajudando a resolvê-los, mesmo quando se trata de relacionamento com os pais ou namoros mal resolvidos.

A Filosofia é uma boa ferramenta para enfrentar os desafios do cotidiano. Mas Merlí está longe da perfeição. Para ajudar o filho, numa prova de Catalão, rouba as questões e as oferece ao Bruno, o que naturalmente ofende princípios da ética. É natural, pois, que ele entre em conflito com o pensamento de outros pais e professores, vivendo um inferno de invejas, agressões e rivalidades.

Mas ele sobrevive. Valoriza a poesia em suas aulas e dedica-se, nas horas vagas, ao jovem Ivan, considerado “esquisitão”, E enfrenta problemas de drogas na classe. Incentiva seus alunos a contestar o sistema, com ideais originais de sexualidade e política. Assim, resiste às peripécias de cinco temporadas.

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