Crônicas

É preciso proteger o sistema
Arnaldo Niskier



Mais uma vez vem à tona a questão de possíveis mudanças no Sistema S. O ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a afirmar que é preciso “meter a faca no sistema”, o que significa dizer que o governo estuda uma forma de alterar o sistema de arrecadação de um conjunto de nove entidades: Senai, Sesi, Senac, Sesc, Sest, Senat, Sebrae, Senar e Sescoop. Elas são responsáveis por gerir um orçamento robusto, usado no financiamento de atividades ligadas ao aperfeiçoamento profissional e ao bem-estar social e cultural dos trabalhadores. Lembramos que as instituições em questão são ligadas às confederações nacionais ligadas à indústria, ao comércio, ao transporte, à agricultura e ao cooperativismo, além do Sebrae.

Considerado o maior sistema de educação técnica e profissional da América Latina, o modelo de atuação do Sistema S é elogiado, pela excelência dos serviços oferecidos. Recentemente o Ibope publicou um levantamento mostrando a aprovação dos brasileiros em relação às entidades. Os conceitos “ótimo” e “bom” prevaleceram nas avaliações da pesquisa “Retratos da Sociedade Brasileira”, mostrando a boa recepção da população às opções disponibilizadas nas áreas de lazer, esporte, educação voltada para o mundo do trabalho e cultura.

As contribuições têm incidência sobre a folha de pagamento das empresas, então são repassadas às organizações para que estruturem as atividades e cursos que são oferecidos ao mercado. Os valores recolhidos têm caráter “parafiscal” e não representam nenhum tipo de subsídio do governo. Ou seja: não se trata de verba pública. O perigo de se promover uma mudança radical nesse modelo criado nos anos 1940 do século passado, e que vem se modernizando com o tempo, é a possibilidade de se criar um abismo que terá consequências trágicas no futuro.

Falou-se num corte linear de 30%, o que poderá provocar a eliminação de 1,1 milhão de vagas por ano e o fechamento de mais de 162 escolas do Senai, principalmente no Norte e Nordeste, exatamente as regiões que mais necessitam dos serviços do Sistema S. O impacto no Sesi também seria grande: menos 155 escolas, além da supressão de 498 mil vagas para alunos do ensino básico ou da educação de jovens e adultos. Saindo do foco da educação, não podemos esquecer que também seriam paralisados diversos equipamentos culturais e esportivos em todo o país. Será que é isso mesmo que queremos para o país?

Para provar que se trata de um programa que oferece educação de qualidade, no Sesi, por exemplo, tem tido uma grande procura as áreas de conhecimento ligadas ao STEAM, sigla em inglês para Science, Technology, Engineering, Arts and Mathematics (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática). Já são 389 escolas e 198 mil alunos antenados com a aplicação desse método, que investe numa abordagem moderna do mercado de trabalho e inclui as principais inovações surgidas. Em outras palavras, caminha-se para uma educação digna de Primeiro Mundo. Será que vale a pena paralisar esse processo?

Se existe a possibilidade de se aperfeiçoar o Sistema S, e se para isso o governo federal achar que deve haver alguma alteração na forma de arrecadação, tudo bem. Que as sugestões sejam então colocadas na mesa. Ao mesmo tempo, as confederações precisam se articular, estudar e oferecer opções, para que sejam avaliadas pela equipe econômica do governo. O que não se pode é simplesmente interromper um projeto que está dando certo. Precisamos encontrar a melhor solução para que o Sistema S continue a oferecer as melhores práticas no mundo da educação e da cultura.

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