Crônicas

A renúncia aos desejos
Arnaldo Niskier



“Merlí”, série teen filmada na Espanha, se passa basicamente numa escola pública da Catalunha. O ator principal é um professor de características modernas, amplo diálogo com os alunos, mas com atitudes por vezes indefensáveis, como quando rouba uma prova e permite que o filho Bruno, também seu aluno, tenha acesso ao conteúdo, para tirar nota 10. Esse triste fato consome praticamente um capítulo inteiro.

Enquanto discute o estilo pessimista de Schopenhauer – e dá um show de erudição – Merlí também não descansa com os seus casos de amor, de que é pródigo. Decepciona a namorada Laia, quando revela que não pode ter filhos, pois fez vasectomia. Ela quer continuar, mesmo assim, pois também não pensa em procriar. São dramas de uma relação mal resolvida. Ambos são funcionários da mesma escola.

Os alunos são adolescentes. Não podem utilizar celulares em sala de aula. Discute-se a teoria de Schopenhauer: “Para alcançar a felicidade é preciso renunciar aos desejos.” Aí se revela todo o pessimismo do autor alemão, para quem desejar a imortalidade do homem é querer a perpetuação de um grande erro: “A vida é essencialmente sofrimento.”

Enquanto avança nessas ideias, Merlí provoca os seus alunos. E deixa no ar a pergunta inteligente: “Se Aristóteles fosse vivo, o seu perfil estaria no Facebook?” Corre na sala, o empréstimo entre colegas do livro “O lobo da estepe”, de Herman Hesse, uma forma inteligente de promover o hábito de leitura. E, embora se reconheça que a tourada pode ser considerada uma arte, condena-se o seu exercício: “Por que maltratar os animais?”

Volta-se a Schopenhauer para destacar a renúncia aos desejos: “É a única saída para o sofrimento.” Filósofo profundamente pessimista, escreveu a antologia do infortúnio, com o título “O mundo como vontade de ideia”, de 1818. Procurou refletir o caos do universo. Para ele, “o caráter ou vontade é herdado do pai e o intelecto da mãe”(ela se tornou uma das mais populares romancistas da sua época). Viveu sem contar com o apoio da mãe, cunhando a famosa frase “primeiro viver, depois filosofar”. Até os 71 anos de idade, compôs a sua grande obra, partindo do princípio de que o intelecto se cansa, a verdade, nunca! E concluiu: “Se o mundo é vontade, deve ser um mundo de sofrimentos.”

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