Crônicas

Daisy Lúcidi
Arnaldo Niskier



Há certos fatos da nossa biografia que não saem da memória. Em meados da década de 50, por exemplo, fui presidente eleito do Diretório Acadêmico La-Fayette Cortes, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da então universidade do Distrito Federal (UDF). Nessa condição, tinha a preocupação de oferecer bons espetáculos culturais aos meus colegas, principalmente de teatro. Havia o handicap de contarmos com um grande espaço, de 800 lugares, na rua Hadock Lobo.

Assim, ocorreu-me convidar a atriz Daisy Lúcidi para apresentar a peça “Os mortos sem sepultura”, de Jean Paul Sartre. Ele topou, veio e foi um enorme sucesso. Adicionalmente, tornou-se uma grande amiga.

Paralelamente, ocupou durante 60 anos o poderoso microfone da Rádio Nacional com o seu famoso “Alô Daisy”. Durante os quatro anos em que fui Secretário de Estado de Educação e Cultura (79-83), em várias ocasiões, ela me entrevistou, com a graça de sempre. Consolidamos uma boa amizade.

Vítima da Covid-19, Daisy morreu aos 90 anos de idade. Será lembrada também como a grande atriz que foi, com ações relevantes no rádio e na televisão. Trabalhou na minissérie “Nuvem de Fogo”, de Janete Clair, na TV Rio, em 1963, e mais recentemente em “Geração Brasil”, em 2014, depois de ter brilhado em “Paraíso tropical”, de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, com o papel de síndica de um prédio em Copacabana e viúva de um militar. Em 2010, participou de “Passione”, de Sílvio de Abreu, em que era uma idosa abusadora sexual. Fez muito sucesso, tornando-se um grande nome da TV Globo. Para a atriz Beth Goulart, “Daisy era uma figura iluminada, generosa e talentosa.”

Foi durante 64 anos esposa do locutor esportivo Luís Mendes, com quem eu tinha uma dívida de gratidão. Trabalhando na TV Rio (Canal 13), ele me convidou para ser repórter esportivo das suas transmissões dominicais. Não pude aceitar porque, na época, era vinculado à Manchete Esportiva. Tinha trabalhos aos domingos e não valia à pena trocar uma coisa pela outra. Mas ficou a dívida. Sempre que nos encontrávamos, o assunto era lembrado, como forma natural de gratidão. E Daisy sabia disso. Descanse em paz, querida Daisy.

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