Crônicas

Lembranças de São Paulo
Arnaldo Niskier



Como virei corintiano? Fui desafiado a fazer a escolha, no Grupo Escolar Rodrigues Alves, na Avenida Paulista, que frequentei por dois anos. Por sorteio, fui premiado com o nome de S.C.Corinthians Paulista do qual me tornei torcedor apaixonado. Imaginem a emoção quando, já adulto recebi homenagens da Assembleia Legislativa de São Paulo. O prêmio era uma camisa do clube, que passei a usar nas praias do Rio, com grande orgulho.

Morei em São Paulo, de 44 a 46. A residência era num pequeno sobrado da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 3196 (esquina da Alameda Lorena), que tinha sido alugado pelo meu pai, enquanto durou a nossa aventura paulistana. Ia a pé para a escola, frequentando as aulas das professoras Rosa, e Irma (primeiro e segunda séries do primário). O curioso é que tenho lembranças desses tempos. Rosa porque me deu um tapa na cara por causa da bagunça que fazia, e Irma, porque me levava para casa, após as aulas (a travessia da rua era perigosa).

Nossa situação econômica era precária. Por isso, meu pai resolveu alugar um quarto no sobrado. A inquilina foi uma loura lindíssima, dona Vera, que vinha da cidade de Itu. Ela arranjou um namorado casado seu Miguel) e nós éramos testemunhas dos seus encontros clandestinos. Viramos amigos deles todos. Depois de um certo tempo, seu Miguel, que era dono de um restaurante no bairro do Ipiranga, resolveu dar uma casa para a namorada, perto do seu trabalho. Ela se mudou, mas não deixou de nos ver, até porque se tornou uma grande amiga da minha mãe.

Em determinada ocasião, levou-me para passar um dia em sua casa. Lembro que havia um quintal, com árvores frutíferas. Fui pra cima de um pessegueiro e me servi. Para não deixar marcas, joguei os caroços na privada...

São recordações de uma temporada em São Paulo, de onde meu irmão Sylvio jamais retornou. Formou-se no Mackenzie e lá lecionou até se aposentar, na cadeira de Geometria Descritiva. Era muito querido pelos seus alunos.

De lá ficou também a lembrança das chuvaradas e do frio intenso. Como teria sido a minha vida se não tivesse voltado para o Rio, aos 10 anos de idade? Só Deus sabe.

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