Crônicas

Amor de Mãe
Arnaldo Niskier



Uma das expressões mais fortes da audiência da rede Globo de TV é o trabalho da sua dramaturgia. Ela sempre se caracterizou por notáveis autores e isso vem de longe, com nomes como Mário Lago, Glória Magadan, Janet Clair e Dias Gomes, que entrou para a Academia Brasileira de Letras no ano de 1991.

Com a longa crise da pandemia, a Globo viu-se obrigada a interromper as suas telenovelas pelo período de um ano, como aconteceu com a sua bem dimensionada “Amor de mãe”, de Manuela Dias. Ela prometia imenso sucesso, com um elenco de primeira ordem, com atrizes como Regina Casé e Taís Araújo (acompanhei os seus primeiros passos, bem jovem, na rede Manchete).

Com a programação do seu retorno, a Globo fez bem em lembrar cenas dos primeiros capítulos. A heroína (Regina Casé) é nordestina, tem cinco filhos e por absoluta necessidade vem morar no Rio de Janeiro. Participa da festa de formatura da filha, escolhida para ser a oradora da turma. Elogia, de forma comovente, os esforços da mãe para educar os filhos: “Devo tudo o que sou a você, que foi um exemplo de sacrifício. Quantas vezes você acordou de madrugada, escuro ainda, para preparar o nosso café e depois saía para trabalhar, a fim de providenciar o nosso sustento.”

A história é coerente. A estrela Jéssica Ellen participa da campanha da Globo sobre aprendizagem. A procura do vínculo com a escola, o combate à lamentável evasão e o retorno seguro às aulas fazem parte da sequência muito bem montada pela autora da novela, que compreendeu de forma notável o momento vivido pelos nossos alunos. A pandemia trouxe inegáveis prejuízos à aquisição de conhecimentos, mas não deve servir de pretexto para o sacrifício dos estudos. Mesmo que se tenha de admitir a educação remota, é importante dar aos educandos aquele mínimo que permitirá a sequência de vida. Para isso, hoje, contamos com mecanismos de apoio, como os que são transmitidos pela internet e deveriam ser distribuídos com a necessária generosidade. Há carência de materiais, laboratórios e bibliotecas para servir às escolas, e isso deve ser exigido das autoridades. Mas nada supera o que entendemos por um legítimo amor de mãe.

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